sábado, 10 de dezembro de 2011

Régia Ribeiro registra visita de Rauer a Luiz Vilela

Concluindo o segundo ano do curso de Administração na UFU, Câmpus de Ituiutaba, a acadêmica Régia Maria Capanema Ribeiro, informada da visita que o coordenador do GPLV, prof. Rauer, fez a Luiz Vilela em Ituiutaba, Minas Gerais, em 28 de outubro de 2011, registrou o encontro, recriando de memória o cenário da casa do escritor. Segundo ela, não é uma reprodução factual, e sim afetiva, com as marcas de muitos eventos que envolvem o escritor, seus livros e seu modo de ver o mundo. Isso será objeto de outro post, em mais alguns dias. Aqui, hoje, fica tão só o desenho.

Luiz Vilela recebe Rauer no alpendre de sua casa, em desenho de Régia Ribeiro.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Integrantes do GPLV participam de Simpósio Internacional

Janaína, Rauer e Fabrina

Nos dias 23, 24 e 25 de novembro, o Prof. Rauer e as mestrandas Fabrina  Martinez e Janaína Torraca da Silva, integrantes do GPLV, participaram do SILEL (XIII Simpósio Nacional de Letras e Linguística e III Simpósio Internacional de Letras e Linguística), promovido pelo Instituto de Letras e Linguística da Universidade Federal de Uberlândia/MG.
No grupo temático Literatura: entre o público e o privado, que teve como mediadores os professores Fernando de Souza Rocha (que está em primeiro plano nas fotos abaixo) e Luiz Carlos Santos Simon, Fabrina Martinez apresentou a comunicação "Fronteiras entre público e privado na literatura da primeira década do século XXI", e Janaína Torraca e Rauer apresentaram a comunicação "A repressão sexual como história submersa no conto 'Meus anjos', de Luiz Vilela".
Eis os resumos dos trabalhos:
FRONTEIRAS ENTRE PÚBLICO E PRIVADO NA LITERATURA 
DA PRIMEIRA DÉCADA DO SÉCULO XXI
FABRINA MARTINEZ DE SOUZA
Nossa proposta é discutir como a exposição de informações íntimas dos autores influencia a leitura do microconto sem título de Daniel Galera (1979) e “Feijoada” de Ivana Arruda Leite (1951), publicados na antologia Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século, organizada por Marcelino Freire em 2004. Galera publica na internet desde 1996, atualmente mantém um site pessoal e diversas redes sociais. Para este artigo, elegemos as cartas que o autor trocou com o editor André Conti a pedido do Instituto Moreira Salles. A correspondência foi escrita entre os meses de janeiro e abril deste ano. A publicação aconteceu simultaneamente. Leite mantém um blog desde 2007, onde divulga suas obras, expõe relações com a literatura, com a família, amigos, leitores, colegas de trabalho e compartilha elementos cotidianos como viagens e receitas culinárias. Beatriz Resende, em Contemporâneos: expressões da literatura brasileira no século XXI, de 2008, afirma que “os diversos usos da internet rapidamente influenciarão a escrita em suas formas mais antigas: a carta será substituída pelo e-mail; o diário íntimo, pelo blog, que torna público, em maior ou menor escala – conforme o gosto do autor –, o registro da vida privada”. Nossa hipótese é de que Galera e Leite modificaram as fronteiras entre o público e o privado na literatura ao exporem informações íntimas simultaneamente à construção de sua obra, além de permitirem que o leitor não apenas assista, mas comente o que está em construção. Há de se considerar que essa ambivalência interfira na leitura de um texto literário, principalmente se considerarmos a concisão extrema do microconto. Entretanto, essa farta quantidade de informações pessoais não muda o conceito apresentado por Antonio Candido em Literatura e Sociedade. Candido afirma que autor, obra e público são os três elementos fundamentais da comunicação artística e que somente quando os três se relacionam é que a literatura completa sua função. A função permanece a mesma, contudo essas novas fronteiras entre público e privado ampliaram o conceito de relacionamento e interferem na leitura. No caso do microconto, um subgênero cuja maior característica é a concisão extrema, a disponibilidade de informações privadas enriquece a leitura e desafia o leitor a entender os limites possíveis entre o escritor e sua obra, bem como, os elementos lingüísticos que constituem o enunciado da narrativa.


A REPRESSÃO SEXUAL COMO HISTÓRIA SUBMERSA 
NO CONTO "MEUS ANJOS", DE LUIZ VILELA
JANAÍNA PAULA MALVEZZI TORRACA DA SILVA
RAUER RIBEIRO RODRIGUES
O artigo tem por objetivo analisar um conto do escritor Luiz Vilela, com enfoque no erotismo e por recorte o tema da repressão sexual. Entre os contos que poderíamos ter por corpus, voltamo-nos para “Meus anjos”, de "O fim de tudo" (1973). Essa escolha se deve ao caráter quase didático ao demonstrar os efeitos da internalização do mecanismo repressor. Utilizamos a obra "Repressão sexual: essa nossa (des)conhecida" (1984), de Marilena Chauí, para o enquadramento descritivo da repressão sexual. Nosso referencial de análise se vale da proposição teórica de Ricardo Píglia, em “Teses sobre o conto”, de que todo conto conta duas histórias. Em “Meus anjos”, uma professora, Dona Carmem, presencia o ato sexual entre dois de seus alunos num terreno vazio, na escola, sob um monte de folhas secas; a furtiva visão dos corpos infantis na vivência amorosa transforma, em sanção disfórica, a vida da professora. Ela tem sonhos avassaladores, sexuais, que a impelem a deixar de ir à escola. Essa é a história aparente. A segunda história é a do erotismo reprimido, que decorre da sociedade, da religião e da família, que coíbem a sexualidade, o que fica submerso no conto, mas é rastreável por diversos indícios. Para trazer à tona essa história submersa, além da teoria de Piglia, também temos por base a teoria do iceberg, de Hemingway. Essa história submersa faz uma representação questionadora que dessacraliza o religioso a partir de uma experiência epifânica. A teoria da epifania, de James Joyce, casa-se com a descoberta de que os alunos, tão docemente chamados de “anjos” pela professora, na verdade não o são. O problema sobre o qual nos detemos pode assim ser expresso: qual o efeito de sentido que o escritor constrói a partir do encontro da primeira com a segunda história? Nossa proposição é de que Vilela, em “Meus anjos”, denuncia o aparato civilizatório que promove a repressão sexual e infelicita as pessoas. O encontro entre a primeira e a segunda história desvela que a fortaleza pública da professora Carmem, elogiada por todos na escola em que atua, desmorona em decorrência dos seus fantasmas privados, interiores. A diretora não esperava que a professora se licenciasse, pois não conhecia os limites e a interioridade de sua subordinada.

As discussões no âmbito do grupo temático e todo o evento foram estimulantes e enriquecedoras, abrindo horizontes às pesquisas do grupo.

Eis dois momentos de nossa participação no Simpósio:

Fabrina apresenta sua comunicação

Janaína apresenta sua comunicação

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Luiz Vilela fala sobre "Perdição"



Informamos, em postagem anterior, que recuperaríamos

entrevistas 
concedidas por Luiz Vilela, durante o longo

processo de escrita e lapidação 
do romance Perdição, e as

re-publicaríamos aqui. Trazemos abaixo a 
reprodução,

integral na parte que dedica a Luiz Vilela, de matéria

publicada 
no jornal Gazeta do Povo, de Curitiba, no dia 6 de

novembro de 2007, com o 
título "Da poesia étnica ao épico

bíblico: Curitiba Literária destaca poeta da 
geração beat e o

mineiro 
Luiz Vilela".



Já o mineiro Luiz Vilela participa do evento promovido pelo jornal Rascunho e vem a Curitiba derrubar o mito de que é recluso. Autor de Bóris e Dóris (Record), ele conta que já terminou o seu aguardado romance “épico de inspiração bíblica” Perdição, sobre um jovem pescador abordado por dois pastores de uma nova religião que o convencem a virar um pregador. O jovem viaja para a capital e acaba fazendo dinheiro com a fé alheia, e volta a sua cidade natal para experimentar a decadência moral e física.
“É um negócio do tipo ‘ascensão e queda’”, explica Vilela. A expectativa em torno do romance, que deve sair no ano que vem, se deve em parte pelo perfeccionismo do autor. “O texto está concluído e agora é o trabalho de lapidação”, diz, admitindo que esse momento é crucial porque se sente capaz de reescrever um texto inúmeras vezes, sem nunca considerá-lo pronto.
O livro faz referência ao episódio bíblico de Pedro, o pescador transformado em apóstolo por Jesus Cristo. Vilela conta que o livro fará jus à fama de suas histórias que sempre acabam de modo trágico. E diz que a citação à Bíblia nada tem a ver com afetações “pós-modernosas” (“Acho isso uma chatura”) e funciona mais como um ponto de partida para o enredo. 
Desnecessária 
“Essa pergunta é terrível e eu não tenho a resposta”, diz Vilela ao ser questionado sobre para que serve a literatura, idéia que costuma abrir todas as edições do Paiol Literário. “Penso que a resposta é desnecessária e que nunca me fez falta.”

Vilela tem 64 anos, é um entusiasta dos eventos literários e acha que qualquer iniciativa que procura divulgar a literatura “se justifica”. Porém, defende que “nada substitui o contato do leitor com os livros”. Embora goste do retorno dado pelos leitores, não é nem um pouco ansioso por tecnologias que tornem essa relação mais fácil ou freqüente demais. “Terceirizei tudo”, brinca. Não usa celular (“É uma coleira”), não tem computador nem e-mail. Escreve seus livros somente à mão e, depois de terminar a primeira versão, entrega para alguém digitá-la. Dessa forma, acredita que consegue ter os benefícios da tecnologia sem aturar a dor de cabeça que a acompanha. 
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Serviço: Curitiba Literária. Etno-literatura com Jerome Rothenberg. Tenda da Praça Osório. Hoje, às 19 horas. Entrada gratuita. 
Paiol Literário com Luiz Vilela, mediado por José Castello. Teatro Paiol (Pça. Guido Viaro, s/ n.º), (41) 3213-1340. Hoje às 20 horas. Entrada gratuita.

Disponível em: http://www.gazetadopovo.com.br/vidapublica/conteudo.phtml?id=710514. 
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Para ler a resenha



A DIVINA PERDIÇÃO

O épico bíblico de Luiz Vilela




clique
aqui.



terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Integrante do GPLV participa de evento na UERJ


Janaina, com o certificado do evento.


A mestranda do Mestrado em Letras da UFMS e integrante do GPLV, Janaina Paul Malvezzi Torraca da Silva, participou do
X Painel Reflexões sobre o Insólito na narrativa ficcional; III Encontro Regional: O Insólito como Questão na Narrativa Ficcional - Re-memorando Murilo Rubião, 20 anos de sua morte
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O evento aconteceu entre os dias 16 e 18 de novembro no Instituto de Letras da UERJ.

Janaina participou da mesa de debates O Insólito em literaturas de língua Portuguesa nos séculos XX e XIX e apresentou o trabalho O tatu e o albatroz: o insólito metafórico em “O buraco”, conto de Luiz Vilela. O trabalho foi escrito em co-autoria com o prof. Rauer.

Eis o resumo do trabalho apresentado
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O tatu e o albatroz: o insólito metafórico
em “O buraco”, conto de Luiz Vilela

Rauer Ribeiro Rodrigues (UFMS/UERJ)
Janaína Paula Malvezzi Torraca da Silva (PG-UFMS)

Resumo: O conto “O buraco”, de Luiz Vilela, publicado no livro de estréia do escritor, Tremor de terra (1967), tem provocado diversificada recepção crítica, com abordagens díspares cujos resultados incitam ao debate e solicitam aprofundamento. Trata-se de narrativa que possibilita diferentes aproximações, da intertextualidade à metalinguagem, da estética da recepção à psicanálise, da representação da solidão ao debate sobre a sociedade de massas, para mencionar somente algumas. Narrado pelo protagonista, o enredo encena a vida de um homem que desde criança cava um buraco no quintal de sua casa: desse modo, termina por se metamorfosear em um tatu. Essa erupção do insólito, em cotidiano de resto absolutamente trivial, propicia ao narrador, que vivencia a própria transformação, reflexões de cunho filosófico e auto-irônico, ao observar a existência humana simultaneamente com olhar que é seu e é de outro — no caso, ele mesmo, que se exclui da vida em sociedade. Desse universo realista, retratado em linguagem simples, coloquial, o fantástico emerge, a nosso ver, com a proposta de refletir sobre a condição ontológica do escritor no ocaso da modernidade. Nesse sentido, o conto é meta-autoral, e a metamorfose em tatu é metáfora que dialoga com o desajeitado albatroz baudelariano. No entanto, no albor dos tempos modernos, o albatroz é símile externo, e o tatu de Luiz Vilela, no indiscernível poente do período burguês, é escolha consciente do sujeito que se torna criador ao arrepio da lógica da sociedade que o gesta, o acolhe e o repele. Demonstrar de que modo Luiz Vilela, no conto “O buraco”, se vale do insólito ficcional para criar tal efeito de sentido é o objetivo deste trabalho.

domingo, 4 de dezembro de 2011

PERDIÇÃO: Resenha - 1

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A DIVINA PERDIÇÃO
O épico bíblico de Luiz Vilela


Perdição
Luiz   Vilela
Romance, 2011
400 páginas
Ed. Record
R$ 39,90

 
Chega às livrarias, nesta semana, o romance Perdição, de Luiz Vilela. Chamar ao caudaloso volume pelo gênero trivial dos manuais de teoria literária desserve ao livro e ao leitor. Trata-se de um épico monumental, e esse é o seu primeiro paradoxo, pois — diferente das normas da epopeia, que preceituam personagens principescas — expõe a vida de personagens comuns para assim representar, refletir e problematizar seu tempo e seu país.
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Ao menos há duzentos anos os estudiosos condenaram a modalidade inaugural da épica, a epopeia, à inanição, considerando-a inadequada como estética para exprimir o burguês capitalista, a sociedade industrializada e um imaginário a-mítico. Como narrativa, ficou a épica reduzida ao romance, sem o sopro totalizador que configura o significado da palavra. Entretanto, Luiz Vilela se vale de sua prodigiosa capacidade de ficcionista e de escritor para contrariar os manuais e realizar, com pertinência, o que parecia incabível.
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Mas não se trata só de um épico, a que em justificado pleonasmo qualificamos de monumental: é um épico bíblico, ou, como já adiantara o próprio Luiz Vilela, em uma entrevista de 2005, um épico de inspiração bíblica. E, sendo assim, mais ainda parece obra anacrônica em tempos de materialismo disseminado nas relações sociais e interpessoais, restando — no âmbito da subjetividade — um vago e raso espiritualismo que mascara em hipocrisia o egoísmo que lateja dentro de cada ser humano.
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Não se trata, e não é o que se pretende expressar, de uma epopeia ou de uma épica nos moldes aristotélicos, nem sequer na configuração hegeliana: diante do mundo fragmentário, do universo dissoluto e de homens coisificados; diante do maravilhoso que se esvaiu de sentido, do transcendente inalcançável e do heroísmo que é apenas propaganda enganosa; diante de globalização que atomiza, da ética vitoriosa do amoral e da violência tornada cotidiana, corriqueira e socialmente vista como aceitável — diante da sociedade ocidental em sua expressão brasileira na virada do segundo para o terceiro milênio, Vilela forja um romance que resgata o ethos de uma narrativa épica.
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Ao construir um épico fundado no intertexto bíblico, Luiz Vilela, por um lado, desvela um tempo em que a religião tornou-se simulacro espelhando efetiva não-religiosidade, e, por outro lado, encena sua fábula como que em cronotopo de exemplaridade, fazendo-a ressoar, no aqui e no agora do Brasil do início do terceiro milênio, o homem em suas fragilidades, angústias, grandezas e mesquinharias de todos os tempos e de todos os lugares.
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Dizer que se trata de um épico e qualificá-lo de inspiração bíblica, no entanto, ainda não é fazer justiça à obra, mesmo sendo o romance bafejado por tal inspiração e tendo tal sopro épico.
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Expliquemo-nos. Trata-se, Perdição, de narrativa que se faz, ao mesmo tempo, fundadora e alexandrina: é fundadora ao ter em si, e os desvelar ficcionalmente, as bases e os fundamentos do Brasil que se faz, após quinhentos anos de existência, nação que começa a se realizar na democracia interna e na autonomia diante das antigas potências metropolitanas; e é alexandrina ao, do mesmo modo, ter em si e os desvelar, por intermédio da criação ficcional, o caótico momento em que o modelo e a estrutura da sociedade ocidental capitalista se exaurem quanto às promessas que fez para a ascensão burguesa, embora tenha, o capitalismo burguês, entremeio suas contradições e em sua camaleônica capacidade de mimetizar e de se transformar, fulminado as utopias que pretendiam rendê-lo e substituí-lo. Desse modo, o romance de Luiz Vilela exala uma esperança desesperançada.
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Para ser fundadora, a narrativa se erige como uma parábola, como se fizesse da famosa passagem de Mateus (16: 18) o ponto de partida do romance: “E eu digo-te que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. Se Cristo assim se dirige a Pedro, o protagonista de Perdição recebe chamado similar, em intertexto com o momento em que Jesus conhece Pedro e o chama para deixar de ser pescador de peixes e se tornar um pescador de homens (ver Mateus 4: 18-20 e Lucas 5: 1-11). Ao mudar de identidade, a personagem desliza — a seu ver — de sua condição mundana, terrena, para se realizar como um enviado do transcendente e pregador de uma nova igreja. Os desdobramentos da decisão, terríveis e trágicos, desvelam os frágeis fundamentos que ordenam e condenam o mundo que estatui.
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Para ser alexandrino, e por assim se realizar, o romance de Luiz Vilela é um desdobrar incessante de referências, citações, homenagens, em ecos evidentes ou em ecos que ocultam sua origem, no exercício intertextual que retoma centenas de autores, poetas, artistas (atores, pintores, escultores etc.), ficcionistas, filósofos e pensadores (teóricos das mais diversas disciplinas, como literatos, teólogos, linguistas, historiadores, sociólogos, sexólogos etc.). E também faz da reflexão metalinguística um de seus pontos altos: nesse caso, como nos demais, o autor evita, com cuidado artesanal, proselitismos e digressões infindas, indo ao ponto, sempre, sem tergiversar.
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O romance se divide em três partes, cada uma delas com onze capítulos. Embora, no geral, as partes sejam equivalentes, os capítulos não são homogêneos quanto ao tamanho, havendo aqueles que são mais longos e outros relativamente curtos. As três partes são: “O rapaz dos peixes”, “Pastor de almas” e... — perdoe-nos, leitor apressado, reservemos esse título para aquele momento em que, ao ter o volume em mãos, o possa descobrir, por si mesmo, em instante de simultâneo susto, apreensão e suspense ao entrever, em uma única palavra, o terrível desfecho da narrativa.
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As três partes, por serem três e apresentarem simetria quanto ao número de capítulos, emula a Comédia de Dante Alighiere, o célebre poema que cristaliza o medievo em seu momento alexandrino, contexto no qual as sociedades e os grandes períodos históricos atingem o ápice de seu modo de se constituir e de se expressar esteticamente. Em Dante, na descrição de um mundo que vive seu apogeu, já se pressente que as portas desse modo de organização da sociedade, em algum momento, próximo ainda que tarde, serão arrombadas para a eclosão do vigor burguês.
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Observemos, em parênteses, que se a segunda e a terceira partes do épico danteano, respectivamente “O Purgatório” e “O Céu”, contam cada uma com trinta e três cantos, a primeira parte, “O Inferno”, tem trinta e quatro cantos. Essa diferença, aparentemente casual, implica em novos sentidos, tanto na Comédia quanto em Perdição.
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No paralelo que aos poucos vislumbramos, parece-nos talvez que a obra de Vilela inverte o caminho, iniciando no céu, embora um céu em que nem tudo são flores, percorrendo o purgatório e chegando ao inferno, onde a tragédia se abate sobre os destinos que as personagens escolheram para si mesmas. O céu, o purgatório e o inferno de Perdição representam o mundo, o nosso mundo, o mundo de nossos dias, no nosso tempo, resultado das nossas escolhas, fruto das nossas decisões e da herança de nossos pais, aquela herança que não soubemos, não quisemos ou não conseguimos re-moldar ao nosso feitio.
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Nessa trajetória, do céu ao purgatório e ao inferno, temos, em outra clave, a trajetória da formação do homem, da infância à vida adulta (impossível, no quadro desenhado, nomear a tal período como de autonomia ou de maturidade) e daí à decrepitude, instante de inexorável queda. Isso no que diz respeito ao protagonista, sendo o narrador homodiegético observador implacável, iluminista, algo cínico, nosso guia satírico em uma sociedade corrompida e entremeio a um mundo sem sentido.
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Trata-se de quadro similar — com certeza em paródia irônica — ao do romance burguês realista, do herói problemático. Trata-se, ainda, do pathos moralista do homem decaído que violenta aos outros, a si mesmo e ao mundo, e que chega a um beco sem saída, a um buraco interrompido pela inabalável laje de uma pedra: é o humano de nossa época, uma época em que cada um traça o seu destino para, no final de tudo, não ter destino algum.
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Apesar de nosso argumento aparentemente nos solicitar que nos alonguemos na exposição do espaço e do tempo, assim como do enredo e da construção das personagens, com toques sobre o narrador (cujo ponto de vista é uma surpresa no universo romanesco de Luiz Vilela, sendo foco narrativo algo raro entre os grandes romances nacionais), não seguiremos por aí nesta nossa primeira e tateante visada sobre Perdição. Fiquemos aqui com Dante e Vilela, e sobre suas obras falemos da linguagem, do humor e de acidez.
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A linguagem, em Luiz Vilela, desde a obra de estreia, o volume de contos Tremor de terra, de 1967, tem por característica a simplicidade vocabular, a seleção lexical de exatidão expressiva, o registro coloquial, a ordem direta, as metáforas sem rebuscamento, a profundidade do pensamento não sendo obscurecida por torneios ou gongorismos.
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Vilela conta histórias ficcionais em que sobre-eleva o enredo, sem apelos midiáticos ou concessões à indústria cultural. Para tanto, a frase é límpida, sem tropicões incongruentes, sem apelos que firam a psicologia das personagens, em fluir que atende a certa correção gramatical e que parece o falar cotidiano, como uma conversa doméstica após o jantar.
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Os diálogos travados entre as personagens em cena parecem arrancados do real, parecem a conversação que temos todo dia com pais, filhos, vizinhos, chefes, comandados ou desconhecidos. Tal efeito de verossimilhança que mimetiza diálogos reais expressa proposta estética da língua brasileira elaborada pelos modernistas brasileiros.
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Em Perdição, a maestria do autor no domínio do diálogo mais uma vez se patenteia, tornando Luiz Vilela uma avis rara no cenário da literatura brasileira atual, na qual a quase totalidade dos ficcionistas formatam digressões, obscuras ou rasas, quando não ambas, em caudais no qual, se há algum diálogo, é tão só do eu consigo mesmo.
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O diálogo encenado pelas personagens de Vilela, na trivialidade do acontecimento banal, comum e corriqueiro, faz com que a narrativa avance, aprofunde e, pela força da arte quanto à seleção lexical e à construção semântica, reverbere o imprevisto de significações ocultas. A construção encenada pelo diálogo entre as personagens, dominante ao longo do romance, é de diálogos em que acontecimentos diários e vulgares ganham densidade, e nos quais debate que invoque tema maior é matizado pelo riso, do cômico à sátira, e, no âmbito moral, pelo sentimento que vai da compaixão por todas as coisas à raiva pelo humano reificado, desumanizado.
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Anote-se que Dante Aliguieri, em sua obra máxima, também se vale do diálogo entre as personagens para expor as baixezas e grandezas, os infortúnios e os amores, dessa gente que Camões, depois, vai nomear “esse bicho da terra tão pequeno”: o homem. Anote-se que o diálogo, em Dante, não é rocambolesco, confuso, hiperbólico ou com violentas inversões sintáticas: é simples e direto, ainda que possa não parecer tão natural quanto o de Luiz Vilela, uma vez que preso aos tercetos, à métrica e às rimas.
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Diverge o romance de Vilela, quanto ao poema de Dante, em um aspecto arquitetural, porque a estrutura matemática, equivalente, causalista, do universo fechado da Comédia, tem em Perdição uma estrutura que parece homóloga, mas não é equivalente — nem, do mesmo modo, causalista — pois reflete um universo aberto, caótico, em que o homem, não mais centro até mesmo de Deus, se descobre pó ínfimo em um infinito sem-fim de planetas e estrelas e buracos negros.
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Quanto a esse aspecto estrutural, o que se verifica é que os cantos danteanos apresentam formatos similares e dimensões semelhantes, enquanto os capítulos do romance de Vilela, como já anotamos, têm maior diversidade e diferenciação quanto ao formato e à dimensão.
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O tônus simples e direto da linguagem, a compaixão — vertente do cristão que acredita no humano — e a acidez, corrosiva, de quem já não tem crença no homem, fazem de Perdição, também sob o aspecto da construção do discurso e dos efeitos de sentido que institui, romance que dialoga com os cantos do poema de Dante Alighieri.
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A forma do épico medieval, em seus cem cantos que progridem do inferno para o céu, é, pois, invertida no romance de Luiz Vilela, cuja trajetória vai da inocência à glória, da glória ao pecado e do pecado à perdição. Desse modo, o romance de Vilela rompe com a proposição danteana também ao não ter, no inferno, uma seção a mais que nas duas outras partes, mantendo a homologia com as outras duas partes, fixando cada uma delas, como descrevemos no início desta resenha, em onze capítulos.
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Algo parece nos dizer que o capítulo em elipse — e justo o último, o inferno do inferno — seria como que um novo épico, a ser escrito: seria como se, depois de Graça, o romance que Luiz Vilela lançou em 1989, e depois de Perdição, que agora vem a lume, o autor lance um novo romance, completando uma trilogia sobre o final dos tempos. Essa obra em preparo — com o humor, com a serenidade, com a sabedoria já entrevista nos volumes anteriores, culmina a representação do Brasil e do mundo dos vinte últimos anos do século XX e da primeira década do terceiro milênio. E o autor a redige em meio a um troar de trombetas, a um canto seráfico embalado em ranger de dentes e gritos de supliciados, tendo nas narinas o odor de enxofre, estando sob a pálida luz de uma aurora na qual os cisnes cantam — ou seja, nos estertores de atmosfera símbolo de bonança predecessora da tempestade final. Em uma palavra, o autor parece antecipar que agora só nos cabe, e ele nos proverá em novo volume, o Apocalipse, o que a última frase do romance parece explicitar ainda mais.
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Se a Comédia de Dante recebeu, pela posteridade, a alcunha de A Divina Comédia, o épico bíblico, fundador, ético, realista, erótico, crítico e alexandrino de Luiz Vilela, o Perdição — seja pela auto-ironia implícita, seja pelo paradoxo que exala, seja pela grandeza da proposta romanesca, seja pela simplicidade coloquial da linguagem ou seja pela superior realização estética — bem pode ser nomeado como A Divina Perdição.

(Rauer)


Rauer Ribeiro Rodrigues 
  • Coordena o Grupo de Pesquisa Luiz Vilela, cujas atividades estão em http://gpluizvilela.blogspot.com; é doutor em estudos literários pela UNESP de Araraquara e professor na UFMS. Faz pós-doutorado na UERJ, sob supervisão do Professor Roberto Acízelo de Souza. Atua no Mestrado em Letras da UFMS, Câmpus de Três Lagoas, e no Mestrado em Estudos de Linguagens, Câmpus de Campo Grande. Ficcionista, tem sete livros publicados — e outro tanto na gaveta (ou nos arquivos de computador). Contatos pelo email rauer.rauer@uol.com.br.

Nota de 8 dez. 2011 - versão anterior desta resenha foi publicada em
:
Jornal do Pontal, Ituiutaba, MG, nº 3491, 8 dez. 2011, p. 13, com chamada na 1ª. página. Disponível em < http://www.jornaldopontal.com.br/JornalVirtual.php >.  
.Nota de 31 dez. 2012 - veja nova resenha de Rauer sobre o romance aqui.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A primeira notícia sobre "Perdição"

No início de dezembro estará nas livrarias o romance Perdição. Narrativa que nasceu como conto, cresceu como novela e foi finalizada como romance, Perdição vem sendo - já há quase uma década - objeto das entrevistas concedidas por Luiz Vilela, e alguns capítulos curtos foram publicadas em órgãos de imprensa. O GPLV publicou, na digital luiz vilela, o capítulo "Oração aos cowboys".

A primeira menção a Perdição aconteceu na entrevista "Indestrutíveis diálogos", que Vilela concedeu ao jornal literário Rascunho, de Curitiba, publicada no nº 28, ano 3, em agosto de 2002, tendo por mote o lançamento do livro de contos A cabeça.

Eis o trecho sobre Perdição:

E projetos? O senhor está planejando escrever algum novo livro? Ou já o está escrevendo?

Nem uma coisa nem outra. É melhor: eu já estou com um novo livro pronto. Só faltam os retoques finais. É uma novela, a minha terceira, e se chama Perdição. O título é extraído de um capítulo da segunda epístola de São Pedro, chamado "Os falsos mestres": "E também houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá, também, falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição. E muitos seguirão as suas dissoluções, pelos quais será blasfemado o caminho da verdade. E, por avareza, farão de vós negócio, com palavras fingidas; sobre os quais já de largo tempo não será tardia a sentença, e a sua perdição não dormita." Mas pode também o título, quem sabe, ter sido extraído de uma passagem em que o personagem, depois de dizer que tivera tudo, dinheiro, carro, mulheres, confessa que não tinha mais nada, que perdera tudo. Ou, por que não?, de uma frase do narrador falando dos brincos da mulher que o procura com a aparente intenção de seduzi-lo: "ah, brincos de argolas grandes, minha perdição! será que ela sabia disso? será que ela sabia?" Ou, finalmente, ele não passaria de uma brincadeira do autor com as palavras, numa curiosa paronomásia? São Pedro e Perdição. Qual? Qual deles? O leitor que leia o livro e tire a sua conclusão. Pois mais não diz nem dirá o autor.

Ressaltam no trecho diversos topoi da ficção de Luiz Vilela:

  1. a presença da religião, invocada pelo intertexto bíblico e pela brincadeira com o nome de São Pedro;
  2. o erotismo, aqui na suave lembrança de que os brincos da mulher eram causa de perdição;
  3. o jogo lúdico com a linguagem, na paranomásia entre São Pedro e Perdição;
  4. o humor, próximo ao cáustico na paranomásia, com algo de ironia machadiana quando o narrador reduz momentaneamente a mulher que o quer seduzir a um par de brincos, escorrendo para a sátira na invocação da Bíblia em trecho que fala da mercantilização da religião;
  5. o humano hic et nunca, na tragédia da queda, da história sempre repetida do homem que perde tudo após alcançar sucesso, conquistas e glórias.

Fosse novela, Perdição seria - hoje - a quarta de Vilela, que já publicou, no gênero, O choro no travesseiro (1979), Te amo sobre todas as coisas (1994) e Bóris e Dóris (2006). Sendo um romance, é o quinto na obra de Vilela. Para uma relação completa da bibliografia do escritor, veja a lista no final da biografia, atualizada até o lançamento de Perdição, que consta na aba Luiz Vilela.

Como se percebe, àquela época o romance ainda era visto, pelo autor, como uma novela, na terminologia em que a novela é uma narrativa cuja extensão está a meio caminho entre o conto e o romance. Vilela informa que faltavam apenas "retoques finais". Entre tal informação, a primeira sobre o romance, e o livro ser publicado, quase uma década só nos retoques, o que desvela mais uma característa do artesanato literário de Luiz Vilela: o trabalho constante de refazimento, de polimento, de busca da melhor e mais adequada forma para cada palavra, cada frase, cada período, cada parágrafo, cada fala de cada uma das personagens. Não seria assim, se não fosse Luiz Vilela, para quem, em afirmação que ele certa vez fez e que deveria ser um mantra para todos os escritores: "Uma única vírgula fora de lugar destroi um romance".

(Rr).