terça-feira, 29 de outubro de 2013

Regionalismo e dissonância, por Luiz Gonzaga Marchezan

No último dia 29 de agosto, aconteceu, no Mestrado em Letras da UFMS, Câmpus de Três Lagoas, a defesa de dissertação da integrante do GPLV Raquel Celita Penhalves dos Reis. Um dos integrantes da banca, o professor Luiz Gonzaga Marchezan (UNESP / Araraquara), proferiu palestra na véspera, dia 28 de agosto, reunindo - no período noturno - diversas turmas do Curso de Letras.

A palestra teve por tema "Regionalismo e dissonância", sendo abordada a obra de Monteiro Lobato, escritor considerado por Marchezan como "um dissonante no interior do regionalismo". O palestrante destacou o perfil de Lobato como homem público, uma personalidade envolvente, controvertida, contraditória, voluntarista, paradoxal e dissonante, "grande em sua impetuosidade, e apesar de seus erros". Em trocadilho com conhecida narrativa de Lobato, Marchezan considerou haver uma "velha praga no regionalismo, no percurso do indianismo ao caboclismo".

Após a palestra, o professor respondeu a diversas perguntas dos presentes. No dia seguinte, participou da banca de defesa do trabalho O antropófago mineiro: um estudo sobre a ficção de Luiz Vilela (veja detalhes aqui e  notícia com fotos aqui).


A mestranda Milena Wanderley, da área de Estudos Literários, escreveu texto sobre a exposição feita pelo professor Marchezan. Reproduzimos abaixo, após foto que registra momento da palestra, essa resenha.

  GPLV, 28.05.2013                                                                                              .
Professor Luiz Gonzaga Marchezan

REGIONALISMO E DISSONÂNCIAS

Palestra/Aula de Luiz Gonzaga Marchezan 
na UFMS, Três Lagoas - Campus I, 
no dia 28 de agosto de 2013.

Encontramo-nos com o professor Luiz Gonzaga Marchezan em uma sala de aula nas dependências do Campus I da UFMS de Três Lagoas. Todos sentados nas carteiras, professores, alunos da graduação e da pós, compartilhando o mesmo espaço de construção de conhecimento. Estávamos todos ali em um cenário escolar, de aula. E foi a isso que assistimos: uma excelente aula do professor Marchezan, que no final ainda promoveu o costumeiro processo de interação do educador ao dialogar com os estudantes que o procuraram.

Através da análise do modo de dizer fabulesco de Monteiro Lobato em Urupês, o professor Marchezan nos apresentou de que forma essa obra colocou o autor entre o fato e a ficção, já que muito do conteúdo ideológico lobatiano aparece nas críticas que faz acerca do comportamento dos caboclos, os quais ele transubstanciou em “tipo nacional”. No entanto, mesmo tendo tal posicionamento em relação ao tipo nacional que construiu, Lobato editou Os caboclos, de Valdomiro Silveira, que traz no seu texto uma visão terna em relação ao caboclo, ao contrário - segundo expôs Marchezan - da visão lobatiana. Eis aí o primeiro contato com o elemento dissonante no regionalismo: um escritor que edita outro cujo texto possui desencontros ideológicos com o seu.

Segundo Marchezan, Lobato possuia uma visão reacionária em relação ao homem rural: deparou-se com as limitações analíticas de seu tempo frente à tipificação do caboclo, de modo que não havia como não infringir sobre o personagem sua própria carga ideológica. O espaço do conto lobatiano, segundo o pesquisador, é a sociedade em momento de transição, um momento intervalar entre duas consciências, uma amena, outra caótica, e o seu conto é testemunha desse tempo.

O autor de Urupês traz uma definição moralizante do universo caipira: as suas personagens são trágicas e excessivas por conta do enunciador, como ocorre, exemplificou Marchezan, no conto “Colcha de retalhos”. A ficção de Lobato traduz uma indignação: o autor transpõe para o conto as suas experiências em forma de fábula. Através da construção da imagem da natureza que engole o homem, Lobato estabelece, de acordo com Marchezan, uma dissonância entre a ação humana e a força da natureza; exemplo modelar está em “Vingança da Peroba”, conto com desfecho moralizante em que há uma desumanização do indivíduo e uma personificação da natureza. O narrador lobatiano, nesses contos, segundo o pesquisador, é muito próximo do narrador da fábula, trazendo um raciocínio que se desenvolve rumo a uma conclusão. Há nessa estratégia de enunciação a intenção de lançar um elo de credibilidade entre a narrativa e o leitor já que a fábula  - explicou o pesquisador - constitui uma instituição de narrar, contar algo de relevância. Ao longo da história de sua articulação, a fábula promoveu a postulação de muitas demandas sociais, o que aproximou o texto lobatiano do leitor, diferente do que ocorreu com o texto de Valdomiro Silveira, com articulação mais próxima do “causo”.


Luiz Gonzaga Marchezan finalizou sua fala destacando as dissonâncias provocadas por esse modo de dizer fabulesco utilizado por Lobato em Urupês. O estudioso do regionalismo na literatura brasileira apontou, ainda, que o regionalismo literário surge da necessidade de um olhar mais honesto sobre os interiores espaciais e tipológicos dos sertões do Brasil. Nos questionamentos finais,  falou sobre a atualidade do regionalismo em narrativas que destacam grupos rurais que passam a viver nas periferias das cidades. Marchezan destacou a necessidade da criação de uma “sociologia do leitor” que possa contemplar mais profundamente os processos de recepção na intenção de entender o que ocorre com o leitor brasileiro frente ao contexto editorial.

Milena Wanderley 
Pós-graduanda em Letras / Literatura da UFMS – Três Lagoas, 
sob orientação da profª Drª Kecilene Gracia-Rodrigues.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Antonio Candido: dois registros sobre Luiz Vilela

"NO FIM, SÓ CONVERSAS DE ESCRITORES"
Texto de João Magalhães, fotos de José Pinto, enviados especiais.
Jornal da Tarde 4.7.69



"A NOVA NARRATIVA"

           Muitos autores mantêm uma linha que se poderia chamar de mais tradicional, sem dizer com isto que seja convencional, pois na verdade operam dentro dela com audácia ― no tema, na violação dos usos literários, na procura de uma naturalidade coloquial que vem sendo buscada desde o Modernismo dos anos 20 e só agora parece instalar-se de fato na prática geral da literatura.               Pode-se mencionar neste rumo a obra discreta de Luiz Vilela, escritor bastante fecundo que estreou em 1967 com um volume de contos.

CANDIDO, Antonio. A educação pela noite & outros
ensaios. São Paulo: Ática, 1987. p. 211-212.

Texto lido em outubro de 1979, com o título "O papel do Brasil na nova narrativa", no Woodrow Wilson Center for Sholars, em Washington. Publicado em "Novos Estudos", Cebrap, I, 1, São Paulo, 1981, na "Revista de Crítica Literaria Latinoamericana", VII, 14, Lima, 1982, e no livro coletivo "Más allá del boom: literatura y mercado", México, Marcha, 1982; e em "Casa de las américas", 136, Havana, 1983.

domingo, 13 de outubro de 2013

LUIZ VILELA NO “ENCONTROS LITERÁRIOS”


     No dia 25 de setembro, Luiz Vilela, a convite da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro e da Secretaria Municipal de Cultura, esteve naquela cidade, participando do projeto “Encontros Literários”. No bate-papo, que aconteceu na Biblioteca Popular de Botafogo e foi mediado pelo escritor Sérgio Rodrigues, Vilela falou sobre sua vida e sua obra e leu um de seus contos, “Era aqui”, que faz parte de seu novo livro, Você Verá, a ser lançado em breve pela Editora Record. Na foto abaixo, um momento do encontro.