Mostrando postagens com marcador Fortuna Crítica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Fortuna Crítica. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Trabalho analisa as diferentes abordagens do “eu” na literatura brasileira contemporânea

Da esquerda para a direita: Luiz Vilela; Cristovão Tezza;
Ivana Arruda Leite e Alciene Ribeiro Leite
Pauliane Amaral e Rauer Ribeiro Rodrigues, pesquisadores em Teoria Literária da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e membros do GPLV, publicam artigo na Revista Scripta (ISSN 1679-5520) que discute as nuances da subjetividade na literatura brasileira contemporânea a partir de textos dos autores Luiz Vilela, Cristovão Tezza, Alcione Ribeiro Leite e Ivana Arruda Leite.

O ponto de partida do trabalho foi uma pesquisa feita pelo jornal Folha de São Paulo, em que críticos apontaram que os “enredos centrados no eu”, frequentemente narrados em primeira pessoa, e com temas ligados, ora mais ora menos explicitamente, à vida do escritor, predominam na produção literária nacional dos últimos anos. A pesquisa do jornal, por sua vez, retoma o texto clássico de Machado de Assis “Instinto de nacionalidade”, no qual o bruxo do Cosme Velho erige seu posicionamento a respeito da discussão entre o particular e o universal na literatura brasileira do fim do século XIX. 

Segundo os autores, o objetivo principal do artigo “As memórias de si: a subjetividade na literatura brasileira contemporânea” é verificar se a autorreferência usurpou o lugar dos debates de relevância social e política na atual produção literária brasileira.

Artigo completo disponível em Fortuna Crítica.

Acesse a revista completa aqui.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Você Verá - 5


José Castello

 / Contos - Você Verá - Luiz Vilela. Record, 128 págs., R$ 30Contos - Você Verá - Luiz Vilela. Record, 128 págs., R$ 30

A inconstância do mundo

Publicado em 19/01/2014 | JOSEGCASTELLO@GMAIL.COM

O mundo humano é maleável e cheio de surpresas. Muitos golpes são desferidos em suas brechas. Muito do que parece ser não é. A duplicidade traiçoeira da existência – que é cheia de sustos e de bruscas revelações – é o tema central de Você Verá, novo livro de contos do mineiro Luiz Vilela (Record). Assim é a vida, por exemplo, de Astrogildo – o Bem, como é mais conhecido –, um desentupidor de privadas que, como todos nós, vive às turras com as reviravoltas do real. Que fazer! Resta a Bem, como se boiasse em um imenso mar negro, se deixar levar. Ser arrastado pelas rasteiras injustas do mundo. Aceitá-las não só como parte essencial, mas até como um benefício da existência. Ele é o protagonista do conto “O Bem”, um dos mais inspirados do livro.
Sua história é narrada por Lauro, que na verdade não se chama Lauro, mas Stanislaw. Simplificaram seu nome para “Lau”. Daí para Lauro foi só um pulo na vida do advogado. Bem lhe presta um serviço, é competente e cobra barato. A amizade surge. Bem tem um terceiro nome, Astro, como a mulher o chama. Nomes deslizam de um lado para outro do relato, indicando a fragilidade do Eu. Ele e Lauro passam a conversar com frequência por telefone. Nesses longos diálogos, cheios de quebras e desvios, Bem está sempre a chorar suas mágoas. Lauro não apenas o suporta: por contraste, sente-se melhor quando fala com o amigo. Envergonha-se do que sente e promete a si mesmo que nunca mais ligará para Bem. Mas, dando uma rasteira em si mesmo, duas semanas depois volta a fazê-lo.
Lauro – que tem um terceiro nome, Stan, tirado de Stanislaw; nomes sob nomes, identidades empilhadas – ouve um dia as agruras de Bem com seu vizinho, Tonhão, um sujeito violento, que anda armado e o enche de ameaças. Pensa até em se mudar para fugir de Tonhão, mas não consegue fazer isso. Um dia, acha que ganhou na Mega-Sena, mas não ganhou – ouviu errado os números no rádio. Já havia até comemorado com a mulher que, ao descobrir a verdade, lhe dá uma vassourada. Cai, bate com a cabeça, tem um sangramento forte, e é Tonhão quem o salva, levando-o a um pronto-socorro. De onde menos poderia esperar que viesse sua sorte grande, é de lá que ela vem. O melhor, muitas vezes, se revela o pior. O melhor sai do pior. Vá se entender o mundo em que vivemos.
A realidade, nas mãos hábeis de Luiz Vilela, é feita de uma matéria inconstante, que está sempre a se transfigurar e a tomar formas surpreendentes. Seus contos são escritos em diálogos seco, substantivos, que quase chegamos a ouvir em voz alta, tal a nitidez e a vivacidade das frases. Vilela é um mestre na arte do diálogo. Em “O Que Cada um Disse”, um homem de bem comete um crime monstruoso. Sua história é narrada por uma série caótica de rápidos depoimentos dados por testemunhas, vizinhos, amigos, a um repórter. “A gente não conhece ninguém: essa é a conclusão que eu tiro”, uma das entrevistadas conclui. “Às vezes, nem a própria pessoa se conhece. Somos um bando de desconhecidos – uns para os outros e cada um para si mesmo”. As surpresas que o mundo nos apronta não vêm apenas de fora, mas de dentro de nós mesmos. Nós somos essas surpresas.
“O ser humano é como uma floresta: você olha de fora, e a floresta é aquela maravilha; mas você entra, e lá dentro você dá com onças, cobras, escorpiões”. Um dos temas prediletos de Vilela é, assim, a ilusão. A ilusão e seu desmascaramento, que é sempre doloroso. A mesma depoente continua: “Por fora uma coisa amável, por dentro uma coisa temível. Ou, como dizia a cartilha na escola, nos meus tempos de menina: por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento”. Existir é decifrar a existência. Nunca se chega a uma conclusão final, as surpresas saem umas de dentro das outras, em uma série interminável. E isso é viver.
É o que acontece no imprevisível “Noite Feliz”. Nada mais previsível, em geral, que as grandes datas. O Natal, por exemplo. Mas Vilela consegue transformar a santa data em um inferno. Aristotelina – segundo nome: Lina – recebe os parentes mais próximos para uma ceia de Natal. Eles chegam desconfiados: sabem que algo estranho os espera nas próximas horas, embora não possam imaginar o que será. “Há meses que eu venho planejando esta noite; pensam que eu vou desistir agora? Nunca.” Durante longo tempo, em uma peregrinação paciente de posto a posto de gasolina, Lina armazenou combustível em garrafas. “Chega. É hora. A meia-noite se aproxima. Vamos. Noite feliz, noite feliz, Senhor...” A estranha ceia é armada: “Uma garrafa aqui: assim. Outra aqui... Agora esta... Mais esta... E esta... Pronto”. A tragédia se consuma na noite em que parece menos provável.
Um dos principais elementos da escrita de Vilela é o pessimismo – e isso se expressa com força no relato que empresta seu título ao livro. Não é preciso dizer muito – o que se esconde não está no conto, mas fora dele. Um jovem chega à rodoviária de Brasília. Estamos em abril de 1963, a um ano do golpe militar. Ainda falta um longo tempo para a partida de seu ônibus e ele decide tomar um café. O dono do bar, um nortista sessentão, é um homem deslumbrado com a cidade em que escolheu viver. “O futuro está aqui”, ele diz. “Um novo país está nascendo nesta cidade”. Mas Vilela sabe o que se esconde sob seu entusiasmo. “Eu talvez não verei; mas você, você, que é muito mais novo do que eu, você verá”. Na esperança do homem aparece, de ponta cabeça, a grande noite política que se aproxima. Dizendo de outra maneira: a esperança é o próprio arauto da desesperança.
Nas histórias de Vilela a realidade surge cheia de inversões bruscas e de destinos inesperados. É preciso estar atento para ler a realidade nas entrelinhas, ou a verdade nos escapa. Função da literatura: desmascarar a dupla condição do real, o paradoxo contínuo que o faz andar. Como observou Walnice Galvão, Vilela nos fala “da ilusão de que tudo poderia ser de outra maneira”. Um mundo duplicado, em que esperança e realidade se entrelaçam em uma espécie de dança fatal. Narrativas secas, diretas, sem adjetivos, sem descrições inúteis, sem divagações prolixas, que remexem diretamente no estranho e inconstante coração do homem
CASTELLO, José. A inconstância do mundo. Gazeta do Povo, Curitiba, 19 jan. 2014. Veja aqui
Publicado originalmente em: O Globo, Rio de Janeiro, "Prosa", 11 jan. 2014. Veja abaixo. 

O artigo de José Castello foi também reproduzido no Jornal Folha do Pontal, de Ituiutaba, MG, em 29 de janeiro de 2014, conforme reprodução abaixo. 

Também reproduz o artigo de José Castello, com data de 11 de janeiro de 2014, o blog Conteúdo Livre: veja aqui.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

LUIZ VILELA E RUBEM BRAGA

                Rubem Braga, o “sabiá da crônica”, que nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo, em 12 de janeiro de 1913, faria em 2013 cem anos. A data está sendo lembrada e comemorada pela imprensa de todo o país.
            Rubem Braga foi um dos autores fundamentais na formação literária de Luiz Vilela, conforme este, por mais de uma vez, declarou em suas entrevistas e depoimentos.
            Vilela começou a lê-lo ainda adolescente, em Ituiutaba, na Manchete, e depois no Diário de Notícias, do Rio. Mais tarde, em Belo Horizonte, comprou o seu livro 100 Crônicas Escolhidas, que tinha acabado de sair. O livro aparece numa das crônicas que Vilela, então com 15 anos, mandava regularmente da capital mineira para um jornal de sua cidade, a Folha de Ituiutaba.
            Oito anos depois, em 1963, quando Vilela, com 23 anos, tentava a publicação de seu primeiro livro, de contos, uma das editoras a que enviou os originais foi a Editora do Autor, de Rubem Braga e Fernando Sabino. Passado algum tempo, recebeu de volta os originais, acompanhados de uma carta explicando os motivos da recusa. A carta era assinada por Rubem Braga.
            Em 1968 Rubem Braga fez parte da comissão julgadora do I Concurso Nacional de Contos, do Paraná, concurso no qual Luiz Vilela, que já tinha, então, publicado seu primeiro livro, de contos, o Tremor de Terra, foi um dos premiados.
            Em 1979 foi realizada, em São Paulo, pela Secretaria Municipal de Cultura, a Semana do Escritor Brasileiro, e Luiz Vilela, com 36 anos, alguns livros publicados, e já bem conhecido do público e da crítica, foi convidado a participar. O mais novo da turma de escritores, ele falaria na mesma noite em que Rubem Braga, além de outros três escritores, falaria.
            Um imprevisto, porém, impediu que Vilela viajasse e ficasse conhecendo pessoalmente o escritor. Isto só veio a acontecer em 1985, no Congresso Brasileiro de Escritores, realizado também em São Paulo e do qual os dois faziam parte. Vilela viu Braga na saída de uma das sessões, no Teatro Sérgio Cardoso, mas não chegou a conversar com ele.
            A seguir, vão aqui reproduzidos a crônica de Luiz Vilela, a carta de Rubem Braga e o cartaz, frente e verso, da Semana do Escritor Brasileiro.




quarta-feira, 19 de junho de 2013

REUNIÃO DO GPLV - CONVITE

Caríssimos gepeelevistas,

Caros estudiosos da obra de Luiz Vilela,

Demais pesquisadores interessados na literatura brasileira contemporânea em geral ou, em específico, na obra de Luiz Vilela,

Convido-os para reunião do Grupo de Pesquisa Luiz Vilela no dia 29 de junho, sábado, com início às 7h30, na Sala do 3º Ano de Letras, no Câmpus 1 da UFMS de Três Lagoas.

A reunião será dividida em dois blocos, um deles administrativo e outro acadêmico. 

No bloco acadêmico, haverá leitura - e debate - de estudos inéditos sobre a obra do Vilela, de autoria dos presentes, antecipando para os colegas textos que serão apresentados em eventos ou enviados para periódicos no segundo semestre de 2013.

No bloco administrativo, tomaremos conhecimento do teor do relatório das atividades do GPLV em 2011-2012, relatório que a professora Clara Ornellas entregará no dia anterior, e debateremos os projetos propostos para o biênio 2013-2014.

Convido-os, também, a comparecer à entrega do Relatório, no dia 28, às 13h30, no mesmo local da Reunião, momento em que a professora Clara fará uma palestra sobre a importância da pesquisa em acervos literários e com a fortuna crítica dos escritores e o modo de abordar essas questões em pesquisas de mestrado e de doutorado.

Conto com a sua presença. Para organização prévia do espaço, solicito a especial fineza de que me confirme, por e-mail e o quanto antes, a presença.

Cordial abraço,

Prof. 
Rauer.


P
rofessor de Literatura Brasileira na UFMS; Doutor em Estudos Literários pela UNESP de Araraquara; Pós-Doutor pela UERJ; atua no Mestrado em Letras da UFMS de Três Lagoa
 s e no Mestrado em Estudos de Linguagens, na UFMS de Campo Grande
; editor-chefe da 
Guavira Letrascoordenador do Grupo de Pesquisa Luiz Vilela – GPLV

Grupo de Pesquisa Luiz Vilela: http://gpluizvilela.blogspot.com/

 
-
--

sábado, 6 de abril de 2013

"Ficção e História em Os novos, de Luiz Vilela"

A dissertação Ficção e História em Os novos, de Luiz Vilela, defendida no final de fevereiro por Rosana da Silva Araújo, está disponível no Blog. Para acessá-la, vá à aba Fortuna Crítica ou clique aqui. Eis o resumo do trabalho:

ARAUJO, Rosana da Silva. Ficção e história em Os novos, de Luiz Vilela. Três Lagoas, 2013. 121 fls. Dissertação (Mestrado, Letras, Estudos Literários) – UFMS/CPTL. Orientador: Rauer Ribeiro Rodrigues.
RESUMO: Esta dissertação estuda o primeiro romance de Luiz Vilela, Os novos, de 1971. Nosso objetivo central, na pesquisa, é analisar a relação entre ficção e história, evidente em Os novos, pois seu enredo encena a vida de jovens à procura de seu destino no início dos anos de chumbo do regime militar de 1964. Trabalhamos com a hipótese de que a arquitetura romanesca de Os novos, construída basicamente por diálogos, de modo questionador e irônico, representa por antítese a superestrutura autoritária e excludente do Brasil dos anos 60 do século XX. Para comprovar nossa hipótese, trilhamos o caminho da intensa tensão política e social do pós-64 e a relacionamos à ficção de Vilela. Voltamo-nos para o estudo das relações teóricas entre ficção e história, para a construção das personagens, para a fortuna crítica sobre o autor, para a construção dos diálogos e para o significado do título de Os novos. Concluímos que o romance e sua estrutura é antitético quanto à repressão política instaurada, ao silêncio e à ditadura, com diálogos que funcionam como contraposição ao contexto histórico. 
PALAVRAS-CHAVE: Diálogo, Fortuna Crítica, Oralidade, Personagem, Teoria literária.
Rosana integra o Grupo de Pesquisa Luiz Vilela, tendo destacada atuação nas atividades do GPLV em seus dois primeiros anos de existência. Ingressou neste ano nos quadros do ensino público municipal da cidade de São José do Rio Preto, no Estado de São Paulo, atuando como professora.

domingo, 23 de dezembro de 2012

"A cabeça" - conto é mencionado em diversos estudos

O conto "A cabeça", que integra o livro homônimo, lançado há dez anos — em julho de 2002 — pela Cosac & Naify, é analisado ou mencionado em diversos estudos. 

Reproduzimos abaixo trechos de alguns desses estudos.

Rinaldo de Fernandes, no Jornal Rascunho, de maio de 2010, in < http://rascunho.gazetadopovo.com.br/o-conto-brasileiro-do-seculo-21/ >:
  • Um conto como A cabeça, do mineiro Luiz Vilela, vale por toda uma série de textos de brutalidade, não só pela (mais que insólita) situação narrada, mas também por sua alta qualidade estética, notadamente a costura dos diálogos. A matriz narrativa dos (bons) autores citados são certamente os textos de Rubem Fonseca. Paulo Lins, Patrícia Melo, Marçal Aquino e Ferréz são — algo não muito difícil de perceber — epígonos do autor de A coleira do cãoFeliz Ano NovoPasseio noturno e O cobrador, entre outras obras-primas da literatura brutal. Nos contos de Rubem Fonseca, que privilegia a primeira pessoa, vale especialmente a tessitura do narrador, o ponto de vista violento (e incrivelmente verossímil) adotado por ele. A cabeça, escrito em terceira pessoa, é um conto que, no que se refere à vertente violenta, ao que tudo indica, não tem matriz em nossa literatura. É original. E sua originalidade, ao invés do narrador, reside especialmente na profunda ironia dos diálogos. Isto é um achado de Vilela (e o diálogo é, certamente, um dos recursos mais notáveis desse autor — é só conferir, nesse sentido, a novela Bóris e Dóris, de 2006). Manhã quente de domingo. Uma rua de um bairro distante do centro. Aí é encontrada uma cabeça humana. Logo se juntam em torno dela alguns populares — “o homem de terno e gravata”, “o da bicicleta”, “o baixote”, “o gordo”, “o barbicha”, “a moça”, “a ruiva”, “dois meninos”… A cabeça do morto desconhecido é, de repente, identificada pela “moça” como sendo a de uma conhecida — “A Zuleide lá do salão”. Mas a sua amiga, a “ruiva”, rejeita a hipótese: “Que isso, menina? Você está é doida!”. O conto (exemplo primoroso, em certos passos, da chamada função fática), cujas falas vinham se tecendo em torno de questões como o odor dos defuntos, Deus, o homem, a vida (“Deus uma cagada, o homem uma cagada, a vida uma cagada”, resume em determinado momento um dos personagens), passa então a se desenvolver em torno da questão de gêneros, pois um dos curiosos ali presentes, “o gordo”, acredita que o crime envolveu adultério: “A mulher estava chifrando o cara, e aí ele — sssp!…” (“sssp!” é o gesto de cortar a cabeça, conforme indica o narrador). A reação da “ruiva”, preocupada com a reputação feminina, é intempestiva: “Como você pode falar uma coisa dessas sem saber de nada?”. Homens e mulheres, a partir daqui, tornam mais tensos os diálogos (em que é visível a carga machista e preconceituosa da fala dos homens). No final, os meninos ficam imaginando uma bola da cabeça. Um diz: “Dá vontade de dar um balão”; o outro emenda: “Aí eu corro lá pra frente e mato no peito”. A brutalidade de nossas relações está em tudo neste conto de Vilela. Está na cabeça cortada e atirada na rua. Nos diálogos, repito, beirando o deboche, e tão espontâneos, dos populares. No choque de uma visão masculina das coisas com uma visão feminina. Na forte ironia do narrador, que expõe tudo isso com uma sutileza tal, que termina nos assombrando e exigindo, inevitavelmente, uma reflexão acerca da natureza da violência que nos cerca. E a ironia, no caso, torna-se talvez a forma mais eficiente de abordagem de questão tão grave de um tempo.

Geraldo Majella de Souza, em Reflexos dos confrontos suburbanos na narrativa de Dalton Trevisan, Tese defendida na UFMG em 2009, disponível em < http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/bitstream/handle/1843/ECAP-7XRG6X/tese_completa_e_revisada.pdf?sequence=1 >:
  • O sentido da contribuição que essa reflexão poderá trazer às leituras críticas dos textos de Trevisan se relaciona com a conjunção expressiva de dois tipos de violência que encontram sua representação na ficção concisa do escritor curitibano. Villaça exemplifica essa relação usando o famoso “Uma vela para Dario”, não sem antes chamar a atenção para o conto “A cabeça”, de Luiz Vilela.
  • A história de Vilela apresenta a violência numa forma banalizada e dialógica com o conto citado de Trevisan: “No conto, diante da cabeça decepada, abandonada no asfalto, as falas das personagens se enquadram numa desqualificação generalizada, evocando o lado bovino do homem” (VILLAÇA, 2004, 65).
  • Nesse conto, as pessoas deparam com uma cabeça decepada de seu corpo e abandonada na rua. O repúdio é a expressão dos transeuntes, e o evento perde, aos poucos, o sentido assustador e cruel, transformando-se em motivo de piada. Cada pessoa isola a cabeça do contexto e a dessacraliza, enxergando nela o signo que lhe interessa. Nessa ocorrência, ela se transforma em apenas um elemento utilitário. Similar reificação se representa em “Uma vela para Dario”, segundo Villaça (2004, 66).
  • A cabeça decepada do conto de Vilela perde o vínculo com o todo, desfigurando-se de concepções morais e ontológicas para suscitar metáforas corriqueiras, irônicas ou simplesmente lúdicas. Dessa mesma forma, Dario também é visto, mesmo diante da morte: é apenas um corpo com seus objetos. Esses objetos revertem o sentido altruísta que a história poderia ter e justificam a banalização da violência em um corpo que se assume tão objeto quanto seus adornos e valores roubados. Importante notar que se “A cabeça” é fragmento da violência, a partir da qual se chega à crueldade do ato, já no conto “Uma vela para Dario”, a crueldade no corpo completo é a potência em si. É o inteiro que transborda metonimicamente na parte violentada.
  • Referência: VILLAÇA, Nízia.  Cemitério de mitos: Uma leitura de Dalton Trevisan. Rio de Janeiro: Achiamé, 1984. Artigo de Villaça que trata do conto "A cabeça" está em < http://www.pos.eco.ufrj.br/docentes/publicacoes/nvillaca_7.pdf >. 


Rauer Ribeiro Rodrigues, em Faces do conto de Luiz Vilela, tese disponível na aba Fortuna Crítica deste blog:
  •  [...] exercício virtuosístico da escrita, uma cristalização do estilo e das fixações temáticas de Vilela. Uma cabeça no meio da rua, curiosos, o sol estalando. Já chamaram “os home”? A resposta é um chiste: “Se quando é um corpo inteiro eles já demoram pra aparecer, que dirá quando é só uma cabeça...” Os personagens são identificados por características fisionômicas ou corporais: é o gordo, o barbicha, o de óculos, o de terno e bíblia que está voltando do culto.
  • No universo desindividualizado de “A cabeça”, a cabeça ganha nome: “É a Zuleide!”, grita uma moça, espalhafatosa. Aí, inicia-se uma discussão: os homens questionam se a mulher não tivera a cabeça decepada por haver traído o marido. Um outro pergunta pelo picolezeiro ou pipoqueiro. A moça fala e gesticula defendendo a honra da... cabeça. E os cabelos ruivos da moça que fala e gesticula deslocam-se, sozinhos, apartados dela e de sua gesticulação. Chegam meninos “vestidos com a camisa de seu time”: a cabeça? É uma bola de futebol com a qual eles farão o gol da conquista do campeonato. É a inversão, a subversão completa de valores, uma das formas de manifestação do riso literário.
  • Nós, leitores, diante desse mundo de cabeça para baixo, nos perguntamos: esse ajuntamento é circo ou festa? É gozo ou sátira?
  • [...]
  • Conto paradigmático de todas as considerações que fizemos da contística de Luiz Vilela é o conto-título de sua última coletânea, A cabeça. Trata-se de um conto que reúne em si o enfraquecimento do narrador quase até à ausência, com predominância do diálogo e o debate, incisivo e em curtas trocas de palavras, dos principais temas de Vilela: a religião, o conflito amoroso, a incomunicabilidade entre os homens, a infância e a velhice, a morte, a violência humana.
  • As estratégias semionarrativas também se multiplicam nesse conto de poucas páginas (AC, p. 123-132): é o riso literário percorrendo gradações que vão do cômico ao satírico; é a sintaxe de transformação dos atores se dando em ritmo veloz, em poucas pinceladas, para logo em seguida se passar para outra cena; são as notações descritivas, rápidas e sintéticas, como que emoldurando a seqüência de cenas ligadas pelo motivo comum da cabeça cortada que apareceu no meio da rua; é a série de isotopias temáticas decorrendo de valores modais sendo realizados em rápida sucessão; é o leitor, atônito, patemizado pelo absurdo da cena, que é vista de modo plácido e jocoso pelos circunstantes. Um personagem (o autor estaria nele explicitado?) como que desiste desse mundo sem alma: “a prosa está boa, mas...” (AC, p. 132) – o conto fecha-se, o enunciador parte, e o leitor, desconsolado com o mundo, fecha o livro.


Algumas considerações sobre a coletânea A cabeça:
“Luiz Vilela confirma ser um dos maiores contistas do país com A cabeça, livro em que mostra raro domínio da técnica do diálogo.” - Almir de Freitas, Bravo!.

            “Dez contos magistrais: sim, existe grande escritor fora do eixo Rio-SP e dos holofotes da mídia.” - Luiz Roberto Guedes, Trip
“Os diálogos mais parecidos com a vida que a literatura brasileira já produziu.” - Sérgio Rodrigues, Jornal do Brasil.

            “O livro de Luiz Vilela tem uma grande importância não porque seja um livro extraordinário, mas porque pisa fundo, e com finíssimo sarcasmo, no centro da ferida de nosso meio literário.” - José Castello, O Estado de S. Paulo.

“Esses contos proporcionam uma surpresa ao leitor: relembrar o poder que frases perfeitamente triviais têm para seduzir, coagir e enganar.” - Carlos Graieb, Veja.

“São textos construídos em cascatas de conversas que se sucedem e surpreendem, logo no início, no meio ou no fim, ao desnudarem desejos e comportamentos humanos que costumam ser camuflados, escondidos como sujeira ou um corpo morto, debaixo do tapete imaculado da sala.” - Cecília Costa, O Globo.

“O tema preferido de Luiz Vilela é o contato humano.” - Francesca Angiolillo, Folha de S.Paulo.

“Na busca da fluência de uma escrita enxuta, Vilela cria uma musicalidade que envolve o leitor aos poucos, à medida que seus personagens costuram conversas reveladoras. São situações prosaicas, mas que captam o fluxo da vida sob o véu das aparências.” - Ivan Cardoso, Istoé.

              “Habitante de um território único em nossa ficção, o mineiro Luiz Vilela é dono de um estilo cristalino como a água de um rio de montanha.” - Miguel Sanches Neto, Rascunho.

“O maior fabricante de diálogos da literatura brasileira.” - Paulo Paniago, Correio Braziliense.
           
“Mesquinharias, sonhos, devaneios, ganância, devassidão, corrupção, violência — um amplo painel construído com um vigor incomum na literatura nacional.” - Néri Pedroso, A Notícia.

“Uma prosa cortante.” - Roberto Nicolato, A Gazeta.

“As narrativas, aparentemente despretensiosas, são sofisticadas armadilhas, armadas pela ironia ou pelo humor, que prendem o leitor e o levam a refletir sobre a vida e sobre o que fazemos dela.” - Francisco de Morais Mendes, O Tempo.

“Vilela, com sua prosa límpida e fluente, é mesmo um excelente contador de histórias. Será necessário mais do que isso?” - Mário Pereira, Diário Catarinense.

“Sua literatura é uma grande invasão à mente e ao coração daqueles que sabem se entregar à voz do escritor. Invasão elaborada com vozes, silêncios e artimanhas literárias dignas de um mestre.” - Valéria Lamego, Veredas.

“Um soco no estômago do formalismo e um tapa na inconsequência moral da classe média.” - João Paulo Cunha, Estado de Minas.

“A inconfundível habilidade de Luiz Vilela em retratar o meandro das conversas e o subentendido dos diálogos está mais uma vez presente em seu novo livro, A cabeça.” - Maurício Moreira, Weblivros.

“Vilela, assim, mostra-se um contista absolutamente contemporâneo, revelador de recalques, temores e truculências que assustam e paralisam o nosso tempo — um tempo que parece não ter passado e que não se permite nenhum futuro.” - Haroldo Ceravolo Sereza, estadao.com.br.

“Os diálogos precisos, fartamente estudados e traduzidos, encontram um lugar de destaque nesses novos textos.” - Whisner Fraga, Brasília Literária.

            “O ritmo dramático apresenta sequências onde o aleatório e o ‘nonsense’ se somam a uma certa crueldade cínica e perversa.” - Nízia Villaça, Rio Letras
“Eis a fala mansa de um ficcionista que impressiona exatamente pelo modo imperturbável — e impecável — com que cria contos.” - Paulo Bentancur, www.bestiario.com.br.

            “Vilela faz de seus contos a geometria do silêncio.” - Rogério Pereira, Jornal do Estado.

“Os personagens de Vilela são sujeitos que, numa falsa tranquilidade, escondem tormentos.” - Cláudia Chalita Azevedo, Scripta.

            “Textos densos e fortes, que criticam com veemência a mediocridade humana.” - Alécio Cunha, Hoje em Dia.

            “Os dez contos deste livro evidenciam a maestria de Vilela no domínio da tessitura narrativa, com diálogos bem armados, não-ditos reveladores e situações cheias de ambiguidade, acidez e humor.” - Bravo! Edição 100 — O Ranking do Melhor da Cultura em Oito Anos.
  
Biobibliografia atualizada de Luiz Vilela está disponível na aba Vilela. E uma relação de estudos sobre sua obra encontra-se na aba Fortuna Crítica.