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terça-feira, 27 de março de 2018

A prosa de Luiz Vilela

Ariovaldo Vidal 
Professor do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da FFLCH-USP
Jornal da USP, 26/03/2018

Em meados da década de 70, eu fazia o curso de Letras na FFLCH, mas andava também às voltas com teatro amador e por isso aparecia na Biblioteca da ECA algumas vezes, por conta do acervo de peças mimeografadas. Numa dessas vezes, estava no final de uma pequena fila de espera e vi no balcão um cartaz em PB que me chamou a atenção: nele havia uma fila e o último sujeito da fila, um homem na casa dos 30 anos, de terno “de bater” e com expressão cansada, olhava para trás atendendo ao chamado da legenda, que dizia: “Ei! Os escritores brasileiros estão falando de você”. Criava-se uma situação curiosa, um jocoso mise en abyme, pois eu era o último da pequena fila, que certamente nada tinha a ver com a fila simbólica do cartaz; esta falava de um Brasil de filas imensas que a literatura do tempo tematizava (com perdão do lugar-comum) kafkianamente. Mas o mais importante dessa imagem estava no fato de que os jovens escritores de então, seguindo ainda a lição do Modernismo, falavam da vida de seu leitor, agora perdido nos meandros de um país sujeito à ditadura e à burocracia.

A legenda se referia a um grupo de escritores jovens ou novos que estava fazendo por aqueles anos uma literatura que ganhava feição própria, identificando não propriamente um grupo, mas um movimento. De certo modo, se a literatura brasileira não entrava no boom da literatura hispano-americana por razões óbvias ou compreensíveis, o fato é que havia no Brasil daqueles anos um bunzinho de nossa literatura, com uma significativa penetração nos ambientes escolares, o que veio acompanhado de um trabalho editorial sagaz, especialmente concentrado na imagem da Editora Ática (edições ilustradas e chamativas, paratextos voltados à linguagem dos adolescentes, etc.), bem como da Editora Brasiliense, com suas coleções destinadas ao público jovem, as “cantadas literárias”, que traziam uma literatura em boa parte marcada de erotismo e aventura.

Dei essa pequena volta para chegar ao ponto que mais interessa: o romance brasileiro do período, e também ou sobretudo o conto brasileiro que se alastrou enormemente naqueles anos, queriam falar do presente do País, adotando nessa empresa muitas vezes uma linguagem despojada ou coloquial, de uma maneira particularmente nova, nem sempre feliz, uma linguagem de desrecalque (para usar um termo de Antonio Candido ao falar de 22), em que o palavrão, de livre curso, tinha mesmo uma conotação política. Se a matéria da literatura sempre fora a vida presente, os homens presentes, o fato é que agora havia um sentimento de urgência na literatura feita por esses novos escritores (e não só na ficção, nem só na literatura), urgência que dava ao conto e ao romance quase sempre uma feição de denúncia, querendo transformar a matéria realista imediata em alegoria do País, conforme a notação crítica de Davi Arrigucci.

Um dos autores mais característicos desse período completou recentemente 50 anos de literatura: Luiz Vilela. Vilela estreou com um volume de contos chamado Tremor de Terra, em 1967, ganhando com ele o Prêmio Nacional de Ficção, em Brasília. Depois desse vieram muitos outros livros e alguns prêmios, passando por Tarde da Noite (contos, 1970), O Fim de Tudo (contos, 1973), O Inferno É Aqui Mesmo (romance, 1979), Lindas Pernas (contos, 1979), Entre Amigos (romance, 1983), para citar apenas alguns, até chegar a O Filho de Machado de Assis (2016) – que eu saiba o mais recente – totalizando cerca de três dezenas de obras entre contos, romances, novelas e várias antologias.

A crítica já observou o que de certo modo é sentimento de grande parte dos leitores de Luiz Vilela, a saber, que sem se dar conta o leitor vai se sentindo personagem do autor. Mas quem é esse leitor, questão que sempre se impõe quando se fala de recepção? Não é fácil definir, até porque muitos leitores não têm essa empatia com a obra, mas é possível dizer duas ou três coisas sobre ele – ou sobre um desses leitores –, a partir de uma evidência de época e de alguns traços de seu personagem central, espécie de alter ego do escritor.

Como se sabe, as grandes cidades brasileiras começaram a inchar ainda mais aceleradamente na passagem dos anos 60 aos 70; e nesse movimento migratório, surgiu uma camada particular de viventes que vinham não do campo para a cidade, mas do interior para a capital, fenômeno que se deu em muitas partes do País. Era uma população jovem, formada de estudantes que pisavam pela primeira vez o chão de uma universidade (o primeiro da família a entrar no ensino superior, geralmente público), deixando para trás uma formação católica de classe média e a segurança do mundo estável e geralmente opressivo dos pais. Na cidade (e na universidade) encontravam também novas formas de sociabilidade, mais abertas e desafiadoras, concentradas na metonímia da “república”. Não era uma “juventude transviada”: era antes uma juventude em trânsito, que não se reconhecia mais no mundo católico dos pais, nem tinha chegado ainda onde queria ou sonhava, pois entre outras angústias o País vivia o entrave da ditadura; e esse era um dado novo: uma juventude que ganhava uma visão politica dos fatos, em meio ao anonimato da grande cidade.

Em muito a personagem central de Luiz Vilela é esse mesmo jovem, e não é por acaso que em sua obra haja um grande número de estudantes e adolescentes. O romance que melhor concentra esse universo de relações é Os Novos (1971), que conta a história de um grupo de universitários em Belo Horizonte, vivendo os impasses de escolhas novas, num país também em impasse. O romance se passa no final dos anos 60, no contexto do nefasto AI-5: Nei é a personagem central que, recém-formado, já dá aulas de filosofia, escreve contos, frequenta bares com os amigos, mantém uma relação afetiva com o pai distante, que às vezes vem visitá-lo, e vive o drama sentimental de fazer dos amantes dois inimigos.

O livro retoma de maneira clara a tradição mineira dos romances que misturam a crônica de grupo e a confissão do protagonista; é visível a presença de O Amanuense Belmiro (1937), de Cyro dos Anjos, nas cenas vivas da roda de amigos que contrastam com um lirismo subjacente ao protagonista (diga-se que no romance de Cyro, o lirismo está por toda parte, enquanto no de Vilela o prosaísmo está por toda parte); mas retoma também e de modo mais claro o livro de Fernando Sabino, O Encontro Marcado (1956), com o qual compartilha um mesmo grupo de amigos que dividem suas preocupações e impasses: “Estou cansado de tudo isso – disse Nei. – Cansado dessa confusão, cansado da literatura, cansado dessa cidade e dessa chuva, cansado até dessas nossas conversas, que não levam a nada. Dá vontade de sumir pra longe daqui”. E compartilha também o fato de ser o depoimento vivo de uma geração, na expressão de Alfredo Bosi para o livro de Sabino.

O romance possui um andamento solto (não desordenado), contando a história de uma geração de jovens escritores, não mais formados em medicina, farmácia ou direito, mas agora ganhando a vida com o magistério ou o jornal, e a caminho do universo da publicidade. Trata-se de um romance de geração, abusando de um prosaísmo pesado, com o palavrão correndo solto e – como romance de geração – tendo no bar o espaço por excelência em que transcorre a ação. Nele (ou neles) habitam as personagens que vivem os impasses de sua geração: além do protagonista Nei, aparecem seus dois amigos mais próximos Vítor e Zé, além de outros que transitam bastante ou pouco pelos mesmos espaços: Ronaldo, Martinha, Milton, Leopoldo, Queiroz, Dalva, Mário Lúcio, Gabriel e Telmo.

Nas conversas que preenchem o livro, aparecem os temas do período e daquele contexto: o papel da literatura, a comédia provinciana dos medalhões conservadores, a liberdade sexual (tratada na chave do preconceito quase o tempo todo), as saídas políticas contra o autoritarismo, etc. E o problema que mais avulta é o sentimento de impotência diante da situação política e a consequente autoironia com a literatura que fazem, por não sentirem vocação para a ação política; e algumas cenas são simbólicas nesse sentido: numa delas, Nei e alguns amigos assistem ressentidos (sentados numa mureta…) a exibição de heroísmo de alguns alunos que haviam sido presos numa passeata no dia anterior; em outra cena, num bar, cogitam as possibilidades de escolha: no primeiro chope, a saída é a revolução; num dos seguintes, a saída é o suicídio; e entre as duas possibilidades acabam escolhendo um filé a palito.

Ainda em outra cena, definem-se como sendo uma “esquerda festiva e manifestiva”; mas o romance não é uma sátira a esse comportamento, e o fato é que as angústias pequeno-burguesas (como dizia o chavão da época) de suas personagens são verdadeiras e garantem o melhor da obra; suas criaturas não dependem ou se explicam por um momento político (ainda que tão nefasto), e sim pelo processo histórico que ultrapassa e explica esse momento.

Não é difícil perceber a composição da tríade central: de um lado, Vítor, o poeta fracassado, que assume de vez ao final a vida burguesa de pai de família, funcionário público, agora “viciado em tevê” e que combate precariamente o vício da cerveja e as idas ao bar com uma horta que cultiva no fundo da casa; de outro, a figura pungente de Zé, funcionário escravizado a um banco, preso irremediavelmente aos cuidados com a mãe, sabendo que não fará nada de bom na vida, pois o talento – que todos reconhecem nele – ressecará na vida burocrática e doméstica a que está preso. Entre os dois, situa-se a figura discreta do personagem central Nei, aquele que parece encontrar uma saída, tantas vezes protelada e desacreditada.

A saída está indiciada numa cena em abismo no meio do romance, que antecipa o próprio romance que estamos lendo: os amigos decidem escrever uma peça – que acaba (mal) escrita e censurada – para denunciar e protestar contra a opressão política; ocorre que de início a peça não está saindo e Nei pondera que a discussão para a escrita pode ser a própria peça: “Está divertido. Essa preparação para a peça daria outra peça, talvez melhor do que a própria. Ou então: a peça nem chegaria a ser escrita”. E o romance que Nei escreverá (e que Vilela escreveu) é justamente a história da preparação para o romance, talvez melhor do que o próprio, relação entre a obra planejada ou desejada e a obra vicária e precária que acabou saindo, mas por isso mesmo mais visceral. No final da narrativa, diz o protagonista que irá retomar o romance e, quem sabe, conseguir escrevê-lo; de fato, é isso que acontecerá: depois de tanta negação, ele finalmente se encaminhará para seu encontro marcado.

Mas para além desse romance, a mesma personagem aparece em diferentes contos e novelas, com outros nomes e roupas, não sem um sentimento de desconcerto que se traduz num olhar solidário (da personagem ou do autor que subjaz ao texto) a outros viventes igualmente sofridos – as mulheres, os velhos, as crianças, os que passam por alguma tragédia. No caso das primeiras, trata-se de um olhar feminino que deixa ver uma condição de opressão num mundo que vai deixando de ser patriarcal; no caso dos segundos, o sentimento de rejeição, de inutilidade, num mundo que vai ficando cada vez mais jovem. Tudo isso filtrado por um olhar melancólico, que não deixa de se disfarçar muitas vezes em humor.

Não vai sem crítica um comentário à prosa do autor, pois a questão é saber o quanto do que estava preso ao momento (“estão falando de você”) não envelheceu com o tempo. Um incômodo evidente a muitos leitores (e a mim) é certo vezo do escritor em buscar um final impactante, que se traduz em revelação algo suspeita ou mesmo em carga patética. Por razões de gênero, isso é mais comum no conto que no romance, mas ainda assim – e por justiça com o autor – é necessário fazer uma leitura modulada do problema. De qualquer modo, sua linguagem sempre às voltas com um coloquial desataviado, seu diálogo que tantas vezes a crítica elogiou, o olhar de ternura para criaturas indefesas ou deslocadas são ainda motivos para seduzir novos e jovens leitores que acabarão sentindo-se personagens do autor.




Fonte: http://jornal.usp.br/artigos/a-prosa-de-luiz-vilela/. Acesso em: 27 mar. 2018.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Trabalho analisa as diferentes abordagens do “eu” na literatura brasileira contemporânea

Da esquerda para a direita: Luiz Vilela; Cristovão Tezza;
Ivana Arruda Leite e Alciene Ribeiro Leite
Pauliane Amaral e Rauer Ribeiro Rodrigues, pesquisadores em Teoria Literária da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e membros do GPLV, publicam artigo na Revista Scripta (ISSN 1679-5520) que discute as nuances da subjetividade na literatura brasileira contemporânea a partir de textos dos autores Luiz Vilela, Cristovão Tezza, Alcione Ribeiro Leite e Ivana Arruda Leite.

O ponto de partida do trabalho foi uma pesquisa feita pelo jornal Folha de São Paulo, em que críticos apontaram que os “enredos centrados no eu”, frequentemente narrados em primeira pessoa, e com temas ligados, ora mais ora menos explicitamente, à vida do escritor, predominam na produção literária nacional dos últimos anos. A pesquisa do jornal, por sua vez, retoma o texto clássico de Machado de Assis “Instinto de nacionalidade”, no qual o bruxo do Cosme Velho erige seu posicionamento a respeito da discussão entre o particular e o universal na literatura brasileira do fim do século XIX. 

Segundo os autores, o objetivo principal do artigo “As memórias de si: a subjetividade na literatura brasileira contemporânea” é verificar se a autorreferência usurpou o lugar dos debates de relevância social e política na atual produção literária brasileira.

Artigo completo disponível em Fortuna Crítica.

Acesse a revista completa aqui.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Você Verá - 5


José Castello

 / Contos - Você Verá - Luiz Vilela. Record, 128 págs., R$ 30Contos - Você Verá - Luiz Vilela. Record, 128 págs., R$ 30

A inconstância do mundo

Publicado em 19/01/2014 | JOSEGCASTELLO@GMAIL.COM

O mundo humano é maleável e cheio de surpresas. Muitos golpes são desferidos em suas brechas. Muito do que parece ser não é. A duplicidade traiçoeira da existência – que é cheia de sustos e de bruscas revelações – é o tema central de Você Verá, novo livro de contos do mineiro Luiz Vilela (Record). Assim é a vida, por exemplo, de Astrogildo – o Bem, como é mais conhecido –, um desentupidor de privadas que, como todos nós, vive às turras com as reviravoltas do real. Que fazer! Resta a Bem, como se boiasse em um imenso mar negro, se deixar levar. Ser arrastado pelas rasteiras injustas do mundo. Aceitá-las não só como parte essencial, mas até como um benefício da existência. Ele é o protagonista do conto “O Bem”, um dos mais inspirados do livro.
Sua história é narrada por Lauro, que na verdade não se chama Lauro, mas Stanislaw. Simplificaram seu nome para “Lau”. Daí para Lauro foi só um pulo na vida do advogado. Bem lhe presta um serviço, é competente e cobra barato. A amizade surge. Bem tem um terceiro nome, Astro, como a mulher o chama. Nomes deslizam de um lado para outro do relato, indicando a fragilidade do Eu. Ele e Lauro passam a conversar com frequência por telefone. Nesses longos diálogos, cheios de quebras e desvios, Bem está sempre a chorar suas mágoas. Lauro não apenas o suporta: por contraste, sente-se melhor quando fala com o amigo. Envergonha-se do que sente e promete a si mesmo que nunca mais ligará para Bem. Mas, dando uma rasteira em si mesmo, duas semanas depois volta a fazê-lo.
Lauro – que tem um terceiro nome, Stan, tirado de Stanislaw; nomes sob nomes, identidades empilhadas – ouve um dia as agruras de Bem com seu vizinho, Tonhão, um sujeito violento, que anda armado e o enche de ameaças. Pensa até em se mudar para fugir de Tonhão, mas não consegue fazer isso. Um dia, acha que ganhou na Mega-Sena, mas não ganhou – ouviu errado os números no rádio. Já havia até comemorado com a mulher que, ao descobrir a verdade, lhe dá uma vassourada. Cai, bate com a cabeça, tem um sangramento forte, e é Tonhão quem o salva, levando-o a um pronto-socorro. De onde menos poderia esperar que viesse sua sorte grande, é de lá que ela vem. O melhor, muitas vezes, se revela o pior. O melhor sai do pior. Vá se entender o mundo em que vivemos.
A realidade, nas mãos hábeis de Luiz Vilela, é feita de uma matéria inconstante, que está sempre a se transfigurar e a tomar formas surpreendentes. Seus contos são escritos em diálogos seco, substantivos, que quase chegamos a ouvir em voz alta, tal a nitidez e a vivacidade das frases. Vilela é um mestre na arte do diálogo. Em “O Que Cada um Disse”, um homem de bem comete um crime monstruoso. Sua história é narrada por uma série caótica de rápidos depoimentos dados por testemunhas, vizinhos, amigos, a um repórter. “A gente não conhece ninguém: essa é a conclusão que eu tiro”, uma das entrevistadas conclui. “Às vezes, nem a própria pessoa se conhece. Somos um bando de desconhecidos – uns para os outros e cada um para si mesmo”. As surpresas que o mundo nos apronta não vêm apenas de fora, mas de dentro de nós mesmos. Nós somos essas surpresas.
“O ser humano é como uma floresta: você olha de fora, e a floresta é aquela maravilha; mas você entra, e lá dentro você dá com onças, cobras, escorpiões”. Um dos temas prediletos de Vilela é, assim, a ilusão. A ilusão e seu desmascaramento, que é sempre doloroso. A mesma depoente continua: “Por fora uma coisa amável, por dentro uma coisa temível. Ou, como dizia a cartilha na escola, nos meus tempos de menina: por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento”. Existir é decifrar a existência. Nunca se chega a uma conclusão final, as surpresas saem umas de dentro das outras, em uma série interminável. E isso é viver.
É o que acontece no imprevisível “Noite Feliz”. Nada mais previsível, em geral, que as grandes datas. O Natal, por exemplo. Mas Vilela consegue transformar a santa data em um inferno. Aristotelina – segundo nome: Lina – recebe os parentes mais próximos para uma ceia de Natal. Eles chegam desconfiados: sabem que algo estranho os espera nas próximas horas, embora não possam imaginar o que será. “Há meses que eu venho planejando esta noite; pensam que eu vou desistir agora? Nunca.” Durante longo tempo, em uma peregrinação paciente de posto a posto de gasolina, Lina armazenou combustível em garrafas. “Chega. É hora. A meia-noite se aproxima. Vamos. Noite feliz, noite feliz, Senhor...” A estranha ceia é armada: “Uma garrafa aqui: assim. Outra aqui... Agora esta... Mais esta... E esta... Pronto”. A tragédia se consuma na noite em que parece menos provável.
Um dos principais elementos da escrita de Vilela é o pessimismo – e isso se expressa com força no relato que empresta seu título ao livro. Não é preciso dizer muito – o que se esconde não está no conto, mas fora dele. Um jovem chega à rodoviária de Brasília. Estamos em abril de 1963, a um ano do golpe militar. Ainda falta um longo tempo para a partida de seu ônibus e ele decide tomar um café. O dono do bar, um nortista sessentão, é um homem deslumbrado com a cidade em que escolheu viver. “O futuro está aqui”, ele diz. “Um novo país está nascendo nesta cidade”. Mas Vilela sabe o que se esconde sob seu entusiasmo. “Eu talvez não verei; mas você, você, que é muito mais novo do que eu, você verá”. Na esperança do homem aparece, de ponta cabeça, a grande noite política que se aproxima. Dizendo de outra maneira: a esperança é o próprio arauto da desesperança.
Nas histórias de Vilela a realidade surge cheia de inversões bruscas e de destinos inesperados. É preciso estar atento para ler a realidade nas entrelinhas, ou a verdade nos escapa. Função da literatura: desmascarar a dupla condição do real, o paradoxo contínuo que o faz andar. Como observou Walnice Galvão, Vilela nos fala “da ilusão de que tudo poderia ser de outra maneira”. Um mundo duplicado, em que esperança e realidade se entrelaçam em uma espécie de dança fatal. Narrativas secas, diretas, sem adjetivos, sem descrições inúteis, sem divagações prolixas, que remexem diretamente no estranho e inconstante coração do homem
CASTELLO, José. A inconstância do mundo. Gazeta do Povo, Curitiba, 19 jan. 2014. Veja aqui
Publicado originalmente em: O Globo, Rio de Janeiro, "Prosa", 11 jan. 2014. Veja abaixo. 

O artigo de José Castello foi também reproduzido no Jornal Folha do Pontal, de Ituiutaba, MG, em 29 de janeiro de 2014, conforme reprodução abaixo. 

Também reproduz o artigo de José Castello, com data de 11 de janeiro de 2014, o blog Conteúdo Livre: veja aqui.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Você Verá - 1

A ARTE CONCENTRADA DO CONTO:
LUIZ VILELA LAN
ÇVOCÊ VERÁ

              Rauer Ribeiro Rodrigues
Ficcionista, professor,
crítico literário

A sétima coletânea de contos do ficcionista mineiro Luiz Vilela, Você Verá, que acaba de sair pela Editora Record, mantém o vigor inaugural do criador inquieto diante de um mundo duro, uma sociedade mesquinha e uma civilização em crise, de pessoas solitárias que tardiamente descobrem a necessidade de compartilhar suas dores.

Você Verá  contém onze contos, alguns publicados antes em jornais ou revistas literárias, impressos ou digitais. Temas marcantes em Luiz Vilela se fazem presentes, como a infância, a incomunicabilidade, o amor, as relações interpessoais, a morte, a política.

A forma narrativa preferencial continua sendo a do diálogo, em que a maestria do escritor mais uma vez se demonstra, estabelecendo variações ousadas, indo do monólogo à citação de falas passadas em falas do presente. Há, ainda, conto construído apenas com declarações isoladas de personagens que não trocam palavras entre si. De modo que o escritor mantém as características que o consagraram como o melhor criador de diálogos de toda a história da literatura brasileira, e acrescenta novas maneiras de contar. Vamos aos contos.

Em "Zoiuda", um professor algo misantropo se torna amigo de uma lagartixa.

Em "Era aqui", um casal dialoga, e o homem relembra episódio marcante de sua infância.

Em "O que cada um disse", um fato inesperado gera diversas reações, colhidas por um narrador que se circunscreve a dispor os comentários para os leitores.

Em "Céu estrelado", um homem de negócios retorna para casa na noite de Ano Novo e, após receber diversos telefonemas (da mulher, do sócio, do filho), entra em uma estrada secundária, desliga o carro e, deixando de participar da festa, "encostou a cabeça no banco, fechou os olhos e ficou ali, na escuridão, esperando passar o tempo, esperando o Ano-Novo passar".

Em "Todos os anjos", pai e filho pequeno conversam sobre... anjos

Em "O Bem", um advogado de sucesso narra episódios de um estranho amigo cujo apelido é Bem

Em "Quando fiz sete anos", a narrativa trata de um presente inútil dado por um avô ao neto, em evocação da personagem criança pelo narrador agora adulto

Em "Corpos", explode a violência de um tempo em que as máquinas dominam a vida humana, com a naturalização da morte como espetáculo

Em "Noite feliz", a personagem recebe parentes para o Natal, ou imagina que os recebe, e para eles prepara surpresa que é questionamento feroz dos fundamentos da civilização hebraico-cristã Ocidental

Em "Mataram o rapaz do posto", a violência que invade o cotidiano brasileiro, mesmo nas pequenas cidades do interior, tem uma clave de humor chistoso

Em "Você verá", a história do país é substrato amargo que lateja em diálogo prosaico ocorrido quarenta anos antes do diálogo ser narrado.

Os onze contos reunidos por Luiz Vilela desde o lançamento, em 2002, de A Cabeça, contêm força narrativa e qualidade estética para repetirem o mesmo fato que constatamos quando daquele lançamento: em algum momento, ao percorrermos as críticas publicadas, perceberemos que conto algum do Você verá ficará sem algum crítico o destacar como a obra-prima da coletânea.

Esta é a principal força deste novo livro: os contos de Luiz Vilela são sempre leitura indispensável.

Mesmo se aqui ou ali houver um tema repisado, mesmo que aqui ou ali uma solução narrativa seja revisitada, mesmo que eventualmente uma formulação estética seja retomada, cada conto de Luiz Vilela traz em si toda a arte concentrada da história do conto universal e do conto brasileiro, tornando-se modelar, exemplar, inesquecível.

 ao livro:  Você Verá.

                                          
                                          SERVIÇO

                       Lan
çamento do livro Você Verá
                       Dia 26 de novembro, 3a.-feira,
                       a partir das 19 horas:

                                        LIVRARIA MINEIRIANA
                                        Rua Paraíba, 1419 - Savassi
                                        Belo Horizonte -MG