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segunda-feira, 11 de julho de 2016

Luiz Vilela está entre os autores dos livros doados às penitenciárias do Paraná

Penitenciárias do Paraná recebem 1,5 mil livros da Procuradoria-geral do Estado

08/07/16 às 15:45 - Atualizado às 15:50 Secretaria da Segurança Pública e Administração Penitenciária
(foto: Secretaria da Segurança Pública e Administração Penitenciária )

Penitenciárias do Paraná receberam 1,5 mil livros literários doados pela Procuradoria-geral do Estado, por meio da Coordenadoria de Estudos Jurídicos, na última semana. As obras serão distribuídas nas bibliotecas das unidades penais para que sejam destinadas ao Projeto de Remição da Pena por Estudo Através da Leitura.


Entre os livros doados estão autores como Ziraldo, Gabriel García Márquez, Fernando Sabino, Bertold Brecht, Clarice Lispector, Alexandre Dumas, Ganymédes José, Carlos Eduardo Novaes e Luiz Vilela.

Segundo a professora responsável pela equipe do Projeto de Remição pela Leitura, Agda Cristina Ultchak, os títulos recebidos são de excelente qualidade. “Os livros recebidos contribuem muito com a prática da boa leitura, pois contemplam leitores de diferentes etapas de ensino”, afirma.

Durante a entrega, o servidor da Escola Superior da Procuradoria-geral do Estado Paulo Collaço, falou sobre a iniciativa. "O projeto é uma excelente iniciativa e conta com o apoio e o incentivo da Coordenadoria de Estudos Jurídicos. A intenção é dar continuidade à ação de doação de livros na valorização da leitura para as pessoas aprisionadas", declara ele.

Atualmente, cerca de 13% dos presos do Estado participam do projeto de Remição pela Leitura, que consiste na realização de leituras mensais de obras literárias e na elaboração de resumo ou resenha do livro lido. A produção é avaliada por um professor de Língua Portuguesa e atingindo a média 6,0, o detento tem direito de reduzir quatro dias da pena a cada livro lido (o limite de participação é de uma resenha por mês).

DOAÇÃO – A campanha de doação para o projeto de remição pela leitura é permanente. São aceitos livros de literatura brasileira e estrangeira, de aventura, romance e outros gêneros, com exceção de livros didáticos, enciclopédias e revistas. Os livros devem ser entregues diretamente nas unidades penais ou, ainda, na sede da Secretaria da Segurança Pública e Administração Penitenciária (sala do Núcleo de Comunicação – Rua Deputado Mario de Barros, 1.290 – 4º andar – Centro Cívico – Curitiba)
.https://www.bemparana.com.br/noticia/452863/penitenciarias-do-parana-recebem-15-mil-livros-da-procuradoria-geral-do-estado

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Loyola recebe prêmio da ABL e cita Luiz Vilela


        RIO — "Meio trêmulo", Ignácio de Loyola Brandão celebrou o Prêmio Machado de Assis, concedido anualmente pela Academia Brasileira de Letras (ABL) a escritores pelo conjunto da obra. A informação foi divulgada nesta quinta-feira pelo blog de Ancelmo Gois, colunista do GLOBO. O paulista, que venceu o Prêmio Jabuti em 2008, tem uma prolífica produção, que abarca contos, romances, biografias e livros infantojuvenis. Ele receberá R$ 300 mil pela honraria. A solenidade de entrega do troféu será realizada no dia 20 de julho.

      — A duas semanas dos meus 80 anos, me derreti. Acho que valeu a pena, está valendo a pena fazer o que faço.

       Um dos nomes mais proeminentes da Geração 70, o autor se notabilizou por livros como "Zero", de 1975. A obra, proibida pela ditadura brasileira, foi lançada na Itália antes de ser editada em português, o que só aconteceria em 1979. O escritor fez questão de dividir a honraria com seus contemporâneos.

       — Estou aqui acabando de receber a noticia, meio trêmulo, mas quero dizer que no fundo este é um prêmio para a minha geração — afirmou. — Para todos aqueles que a partir dos anos 1970 saíram pelo Brasil, foram para escolas, faculdades, teatros, igrejas, centros acadêmicos, falando sobre literatura, processo de criação, censura e ditadura e resistência.

       O escritor, então, citou nominalmente dez colegas. Foram lembrados por ele nomes como Antônio Torres, Nélida Piñon, Raduan Nassar, Luis Fernando Veríssimo, Luiz Vilela, Ivan Ângelo, Moacyr Scliar, João Antônio, Wander Piroli e Roberto Drummond.

        Em 2015, Rubem Fonseca foi o escolhido pelos acadêmicos e recebeu R$ 100 mil. No ano passado, a ABL distribuiu R$ 450 mil em prêmios, divididos em categorias como ficção; literatura infantojuvenil; história e ciências sociais; ensaio, crítica e história literária; tradução; e cinema, além do troféu pelo conjunto da obra. Em 2016, no entanto, a ABL manteve apenas o Machado de Assis e triplicou o seu valor.



Outras informações sobre o prêmio:

ROMANCISTA IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO É O PRIMEIRO VENCEDOR DO PRÊMIO MACHADO 
DE ASSIS, EM SEU NOVO FORMATO – ANUNCIA A ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS

    “A premiação da ABL envolve, acima de tudo, reconhecimento ao agraciado pela contribuição à cultura brasileira, representada pelo conjunto da obra realizada”, afirma o Presidente da ABL, Acadêmico Domício Proença Filho

     A entrega do prêmio será no dia 20 de julho, quarta-feira, em solenidade no Salão Nobre do Petit Trianon. No mesmo dia, a Academia estará comemorando seus 119 anos de fundação.

    O romancista paulista de Araraquara, 79 anos, Ignácio de Loyola Brandão, pelo conjunto de sua obra, é o primeiro ganhador do Prêmio Machado de Assis, no novo formato (a partir deste ano, o único a ser outorgado pela ABL), divulgou hoje, dia 7 de julho, quinta-feira, a Academia Brasileira de Letras.

    Loyola Brandão receberá a importância de R$ 300 mil e diploma, que serão entregues em solenidade no Salão Nobre do Petit Trianon, no dia 20 de julho, quarta-feira, quando a ABL estará comemorando seus 119 anos de fundação.

    Domício Proença Filho, terminada a votação, afirmou: “A reformulação que resultou na concessão de um único prêmio, com o nome de Machado de Assis, objetiva conceder à láurea maior representatividade e relevância”.

    A Secretária-Geral, Acadêmica Nélida Piñon disse que “o vencedor de um prêmio que leva o nome de Machado de Assis encarna o espírito criador dos escritores brasileiros. A outorga deste prêmio alça o premiado à categoria de mestre da narrativa”.

   Em seu novo formato, o Prêmio Machado de Assis valoriza e reverencia o autor brasileiro, ao consagrar o conjunto de sua obra, de acordo com a ABL. O vencedor fez parte, inicialmente, de uma lista tríplice entregue pelos Acadêmicos. Considerados os nomes mais votados, a Diretoria criou uma nova lista e a apresentou ao plenário em ordem alfabética. A seguir, houve a escolha do ganhador, por intermédio de votação secreta, em sessão acadêmica.

     A ABL, até 2015, concedia prêmios em diversas áreas (poesia, ficção, ensaio, literatura infanto-juvenil, tradução, cinema e História e Ciências Sociais). A partir deste ano, apenas o Prêmio Machado de Assis será o representativo da Academia, intercalando as áreas de Literatura e de Humanas, sempre com a condição de valorizar o conjunto de obra dos autores selecionados.
     Na oportunidade, a ABL também fará a entrega das Medalhas João Ribeiro ao educador Carlos Alberto Serpa de Oliveira e ao escritor Maxmiano de Carvalho e Silva.
07/07/2016 - http://www.academia.org.br/noticias/romancista-ignacio-de-loyola-brandao-e-o-primeiro-vencedor-do-premio-machado-de-assis-em

terça-feira, 14 de outubro de 2014

"VOCÊ VERÁ" EM 2ª EDIÇÃO


       Fato raro nas letras nacionais, Você Verá, o livro de contos de Luiz Vilela, publicado pela Editora Record, acaba de sair em 2ª edição, menos de um ano depois de ter sido lançado.
       Você Verá, que foi finalista do Prêmio Brasília e é um dos indicados ao Prêmio Portugal Telecom de Literatura e um dos finalistas do Prêmio Jabuti, recebeu em julho, da Academia Brasileira de Letras, o Prêmio ABL de Ficção (romance, teatro e conto) de melhor livro de ficção publicado no Brasil em 2013.
        Além disso, Você Verá foi escolhido como um dos livros de leitura obrigatória do vestibular de 2014 da Universidade Estadual de Minas Gerais, UEMG. Estampamos abaixo o cartaz, que será colocado em todos os colégios de Belo Horizonte, além de outros locais.
         Para mais informações sobre o livro, clique aqui e aqui.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Academia Brasileira de Letras escolhe "Você Verá" como o melhor livro de ficção lançado no Brasil em 2013

ABL divulga vencedores de seus Prêmios Literários de 2014 (para obras publicadas em 2013)

A Academia Brasileira de Letras definiu hoje, segunda-feira, dia 7 de julho, em sessão extraordinária no Petit Trianon, os ganhadores de seus Prêmios Literários de 2014 (para obras publicadas em 2013).
O Prêmio Machado de Assis, o mais importante da ABL e o único pelo conjunto da obra, concedido desde 1941, foi para o cientista político, pesquisador e professor pernambucano Vamireh Chacon.
Vamireh Chacon receberá a importância de R$ 100 mil (cem mil reais), e os demais ganharão R$ 50 mil, juntamente com os diplomas, que serão entregues no dia 17 de julho, quinta-feira, em solenidade no Salão Nobre do Petit Trianon, quando se comemorarão, também, os 117 anos de fundação da Academia.
Os vencedores dos Prêmios ABL foram: na categoria Poesia, Gabriel Nascente, pelo livro A biografia da cinza; Ficção (Romance, Teatro e Conto), Luiz Vilela, Você verá; Ensaio e Crítica Literária, João Cezar de Castro Rocha, Machado de Assis: por uma poética da emulação; Literatura infantojuvenil, Tatiana Salem Levy, por Tanto mar; e Mirna Pinsky, por Um menino, sua amiga, um  fichário e dois preás; Tradução, Safa Jubran, E nós cobrimos seus olhos; História e Ciências Sociais, Lília Moritz Schwarcz, Batalha do Avaí; Cinema, dividido entre Matthew Chapman e Julie Sayres, pelo roteiro do filme Flores Raras, dirigido por Bruno Barreto.

Em 7/7/2014
http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=16352&sid=1015

terça-feira, 24 de junho de 2014

Grupo de Estudos discute textos seminais para os estudos literários

CONVITE

No dia 28 de junho, com início às 8h, temos reunião do Grupo de Estudos do GPLV. Vamos discutir duas partes ("A reflexão ontológica" e "A consciência artesanal") do livro Uma ideia moderna de literatura - textos seminais para os estudos literários (1688-1922), volume organizado pelo professor Roberto Acízelo de Souza.

A apresentação dos textos será feita pela mestranda do PROFLETRAS Karina Torres Machado e o debatedor será o mestre Rodrigo Andrade Pereira. O livro está no processo seletivo do PPG-Letras Mestrado e Doutorado da UFMS.

Local: PPG-Letras da UFMS, Câmpus 1 de Três Lagoas

Hora: 8h

Convidamos os membros do GPLV, os estudiosos de Luiz Vilela e demais interessados.

​Cordial abraço,

​Prof. 
Rauer.

Doutor em Estudos Literários pela UNESP de Araraquara, com pós-doutorado na UERJ; 
 P
rofessor de Literatura Brasileira na UFMS, no Câmpus do Pantanal, em Corumbá,  e no 
 PPG-Letras 
Mestrado e
 Doutorado 
da UFMS de Três Lagoas; editor-chefe da 
Guavira Letras; líder do Grupo de Pesquisa Luiz Vilela – GPLV. E-mail: rauer.rauer@gmail.com

Grupo de Pesquisa Luiz Vilela: http://gpluizvilela.blogspot.com/
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sábado, 26 de abril de 2014

Em entrevista, Luiz Bras menciona Luiz Vilela

          O escritor Luiz Bras, pseudônimo de Nelson de Oliveira, e que também assina como Valério de Oliveira, acaba de lançar Pequena coleção de grandes horrores, coletânea de contos curtos. Em entrevista ao escritor e jornalista Carlos Herculano Lopes, do jornal Estado de Minas, o escritor falou de sua obra e da literatura brasileira.


"Num país em que há contistas do nível de Dalton Trevisan, um Rubem Fonseca, um Luiz Vilela e tantos outros, o conto jamais estará em baixa" - Luiz Bras.


Veja a íntegra da entrevista aqui.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

A noite de Natal na obra de Luiz Vilela

        A noite de Natal é o espaço e o tempo de dois contos de Luiz Vilela: “Feliz Natal” e "Noite Feliz".

        Em "Feliz Natal", a personagem faz de tudo para sozinha comemorar o Natal. Conseguindo seu intento, faz solitário brinde em seu apartamento.

        Em “Noite feliz”, há uma síntese da visão do autor sobre a religião, o catolicismo e a civilização ocidental; o conto é sátira na tragédia encenada por personagem com o significativo nome de Aristotelina.

        Para  Rauer,  na  tese  Faces do conto de Luiz Vilela, "os contos, novelas e romances de Luiz Vilela, que tratam do religioso, recriam um universo cujo significado estético é o de propugnar um humanismo visceral em que o homem tem valor por sua própria existência, não justificando sua ética pela transcendência religiosa".

        Para ter acesso à tese de Rauer, vá à aba "Fortuna Crítica" ou clique aqui. Para ouvir o conto "Noite Feliz", clique aqui. O conto está no livro Você Verá (2013); já o conto "Feliz Natal" está no livro Lindas Pernas (1979). E para mais comentários sobre o conto "Noite Feliz", clique aqui e aqui.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Você Verá - 4

Inquietação e prazer »

Luiz Vilela reúne 11 contos no livro 'Você verá'

Novo trabalho do autor sugere contraponto entre natureza e cultura com a presença de animais nas histórias

Publicação:07/12/2013 00:13Atualização:09/12/2013 14:29


 “Andava pelo quinteiro, muito asno, muito parvo, como se mesmo a dois passos não estivesse a acontecer aquela grande desgraça. É certo que também ele, Nero, vira morrer o gato, um sem-número de frangos e galinhas, e cada ano seu porco, sem o menor estremecimento. A verdade, acima de tudo. Mas desta vez, o caso mudara de figura: finava-se um cão...”
Miguel Torga, “Nero”, Bichos

Para tratar da recente coletânea de contos de Luiz Vilela, 'Você verá', lanço mão de um texto do português Miguel Torga, autor de um belo e estranho volume de contos intitulado Bichos, publicado em 1940.

 Sabe-se que o escritor mineiro, com certa obsessão, sempre valorizou os animais irracionais em sua obra, muitas vezes até relativizando a noção de racionalidade no confronto entre bicho e homem. E, ao pôr em cena um cão, um gato, uma lagartixa, um pássaro, um gambá, um tatu, o que se vê, em verdade, é o drama humano, é a situação limite que ronda todos os seres perecíveis. Se Miguel Torga centrava toda a ação narrativa em personagens-bichos com nomes humanos, Luiz Vilela nem sempre situa o bicho como protagonista, mas frequentemente como discreto coadjuvante, e, com isso, sutilmente estabelece um contraponto entre natureza e cultura, premiando o leitor com alta voltagem de inquietação e também de prazer.

São 11 os contos de Você verá e, a rigor, apenas o primeiro, “Zoiuda”, apresenta uma lagartixa como personagem marcante, cuja participação é a de fazer companhia a um solitário e desiludido professor de português. A aparição e sumiço desse animalzinho pontuam uma vida de tédio do protagonista, mas que chega a pressentir um “minúsculo coração” que poderia estar “batendo um pouquinho mais forte” (p.7). Não seria a literatura exatamente uma das artes que provocam esse tipo de emoção?

No conto “Era aqui”, o homem mostra à namorada o lugar onde outrora havia o campinho de futebol de sua infância. Em meio à crítica sobre as promessas mentirosas dos políticos (prefeitos que iriam fazer a praça), o que impera é o poder da nostalgia, mediada por um sabiá que, “escondido na folhagem de uma árvore, emitia, a intervalos, o seu canto, sempre igual e sempre belo” (p.14). E é ouvindo o canto dessa ave que o homem, mergulhado em suas recordações, dali emerge e faz uma declaração de amor à companheira.

Em “O que cada um disse” temos uma narrativa polifônica, em vários blocos, criando uma dramática expectativa sobre o que teria feito um certo sujeito. Num determinado ponto, aparecem os bichos como eloquentes metáforas dos mistérios entranhados nas criaturas racionais: “O ser humano é como uma floresta: você olha de fora, e a floresta é aquela maravilha; mas você entra, e lá dentro você dá com onças, cobras, escorpiões” (p.21). Nessa mesma narrativa há o comportamento irracional de um Tidião que pegara uma espingarda e deu tiro em tudo que era bicho: “Vaca, porco, o cavalo, o cachorro. Nem o gato escapou. Nem o galo. Ele deu tiro até em passarinho na árvore”(p.24).

Uma das melhores histórias do livro é “Céu estrelado”: o homem regressa de carro para sua cidade, numa noite de passagem de ano, e cruza na estrada com um tatu, e o trata respeitosamente em seus pensamentos. (Em Tremor de terra, um dos personagens acaba se transformando em tatu.) Essa cordialidade com o bicho contrasta com o ambiente de sua casa, repleta de gente e dominada por uma mulher estúpida com quem ele conversa pelo celular. O desfecho desse conto, com direito ao aroma dos eucaliptos, é digno das grandes narrativas de Luiz Vilela sobre as angústias do bicho homem.

Em “Todos os anjos”, o mais lúdico dos textos, o pai conversa com seu filho que vem de uma aula de catecismo. A história gira sobre a existência dos anjos, que se assemelham a pássaros e a cobras voadoras. E a certa altura do diálogo o pai fala que “a minhoca só falava na língua delas: o minhoquês” (p.42). Como o menino estava com a cabeça cheia das informações da freira que lhe dava aulas, é irresistível a associação entre esse anelídeo e as ideias que botavam na cabeça das crianças...

Crueldade 
No mais longo dos contos, “Bem”, em que o narrador ocupa dois planos da narração (o momento da enunciação e o tempo em que fizera amizade com um limpador de privadas, o “Bem” do título), temos uma espécie de ensaio sobre a crueldade humana: o narrador acaba tendo prazer de ouvir pelo telefone todas as desgraças que abatem sobre o pobre diabo que só atraía males, pois afinal os males vêm para o bem. Muitos trocadilhos perpassam pela narrativa em que o autor explora mais uma vez a catarse através da conversa telefônica, como já fizera em “Tarde da noite”. Num determinado momento, o gato que quebra o vaso da esposa de Bem e o cachorro que adoece e morre marcam e prenunciam mais desgraças que cercam o personagem.

O passado retorna no conto “Quando fiz sete anos”, em que o narrador recorda-se da bússola estragada que ganhara do avô. Num instante de intensa alegria, surge o bicho expresso em metáfora: “Eu agradeci e, doido para abrir o embrulho, fui para casa, a três quarteirões dali, voando como um alegre pássaro da manhã” (p.80).

Na mais mórbida das narrativas, “Corpos”, o autor expõe traços negativos da curiosidade humana: duas pessoas vasculham um site procurando detalhes dos corpos estraçalhados num desastre aéreo. Os bichos aparecem em dois planos: num dito popular: “abra um corpo e verás teu corpo, dizia minha avó” (p.85); e nos bichos da floresta em que o avião caíra: um passarinho que estava “todo tranquilo” (p.87) num galho, indiferente à tragédia, e nos supostos bichos que poderiam ter arrastado corpos das vítimas (p.89).

O caráter trágico e irônico retorna em “Noite feliz”, um dos contos mais pungentes, sobre uma mulher solitária numa noite de Natal. O autor é extremamente econômico em suas informações, deixando ao leitor a construção mais completa do quadro que se verá. Mas um gato aparece nas lembranças da protagonista, o macio e quentinho felino que se chamava Pretinho, nome que, metonimicamente, remete ao desfecho inesperado.

Em “Mataram o rapaz do posto” há o mal-entendido sobre a morte do homem citado no título. O bicho que aparece na história é um gambá. Mas o grande fedor está implícito (novamente) na crueldade humana.

No conto “Você verá”, que fecha o livro, você, leitor, não verá bicho algum. O protagonista encontra-se, de madrugada, num bar da rodoviária de Brasília, nos primeiros tempos da nova capital. O dono do barzinho é esperançoso em relação à cidade construída pelo “maior dos mineiros” (p.109). Crê o homem que este é “um país onde todos terão oportunidade, onde ninguém mais passará fome, ninguém mais precisará pedir esmola nas ruas” (p.108). O narrador se encontrava empoleirado num banquinho (p.105). Empoleirado, como uma ave, talvez como um bem-te-vi. E é a sensação que temos ao fechar o livro, bem-te-vi, com todos bens e males do bicho humano neste mundo tão pequeno...

Caio Junqueira Maciel é escritor.

Você verá
Luiz Vilela
Editora Record
128 páginas, R$ 30


Romancista e contista, Luiz Vilela mira nos eventos banais para mergulhar no sentido da existência - http://beneviani.blogspot.com.br/2013/12/inquietacao-e-prazer-caio-junqueira.html >. 

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Uma entrevista com Luiz Vilela


Você Verá


       Depois de publicar, em 2011, o romance Perdição, você, com o Você Verá, volta ao conto...
      Não, na realidade eu não voltei, porque os contos de Você Verá foram escritos nos últimos dez anos, o mesmo período em que escrevi o Perdição e a novela Bóris e Dóris, publicada em 2006.

      Ao longo de seu percurso literário você sempre transitou entre o conto, a novela e o romance. Como que é isso?
     É simples: eu sou um contador de histórias, e romance, novela e conto são para mim apenas diferentes formas de contá-las.

      Você viveu nos Estados Unidos, depois na Espanha, passou temporadas em Cuba, na Alemanha e no México, mas sempre retornou a Ituiutaba, sua cidade natal, no interior de Minas. É nela que você encontra o maior impulso para escrever?
     O maior impulso para escrever me vem de tudo o que eu vivi nos lugares onde morei ou por onde passei e que ficou registrado na minha memória.

     Quais foram as suas principais referências literárias nos seus inícios como escritor?
     Tendo começado a ler muito cedo e a escrever ficção aos 13 anos, aos 20 eu já tinha lido quase tudo o que mais importava ler na literatura nacional e na estrangeira, e embora eu pudesse destacar aqui alguns autores, prefiro dizer que, de um modo ou outro, todos esses livros me influenciaram.

     Você Verá parece habitado especialmente por personagens mineiros...
      Como sou mineiro e como passei a maior parte de minha vida em meu estado, é natural que alguns de meus personagens tenham traços mineiros, mas não é isso o que mais interessa neles, e sim o que eles têm em comum com pessoas de outros estados e até de outros países. Acho que qualquer pessoa de qualquer parte do mundo que ler os meus contos irá se identificar com os meus personagens.

      Há em vários contos a presença de animais. Qual é a sua relação com eles?
      Eu gosto muito de bichos. Sempre gostei, desde criança, e sempre os tive. Ainda recentemente, eu tinha em casa três gatos: um rajado, um preto e um siamês, branco e bege, da cabecinha preta e olhos azuis. Os dois primeiros morreram de doença, e o terceiro, que era o meu companheiro inseparável, uma noite saiu e, sem que eu saiba o que aconteceu com ele, não voltou mais, me deixando na maior tristeza.

      Alguns contos são marcados por momentos de humor...
      O humor, para mim, é fundamental, não só na literatura, mas também na vida, declaração que já fiz dezenas de vezes e que aqui volto mais uma vez a fazer.

      Outros contos são marcados pelo desencanto...
      Um dos personagens de um dos contos, uma velha senhora, diz: “Do ser humano tudo se pode esperar: das melhores às piores coisas.” Infelizmente são as piores as que mais temos visto. Alguém discordará de mim?...

      Você se dedica inteiramente à literatura. Como é a rotina de um dos escritores mais importantes do Brasil?
      A maior parte do tempo eu passo em casa, escrevendo, resolvendo questões ligadas à minha atividade, lendo os jornais do dia. No restante do tempo eu cuido de minhas necessidades pessoais, quando então geralmente saio à rua e encontro amigos e conhecidos, com quem sempre bato um papo e às vezes tomo um cafezinho ou uma cerveja. É essa, em resumo, a minha rotina.

Luiz Vilela e "Lindo", um de seus gatos

Entrevista de divulgação
Editora Record
Novembro de 2013

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Você Verá - 2

Grandeza das coisas miúdas »

Luiz Vilela lança a coletânea de contos 'Você verá' em Belo Horizonte

Escritor retrata com estilo direto momentos aparentemente banais da vida de gente comum


Carlos Herculano Lopes - EM Cultura Publicação:26/11/2013 07:50Atualização:26/11/2013 09:06
  
Romancista e contista, Luiz Vilela leva para suas histórias a dimensão nem sempre percebida da realidade

Em 1967, aos 24 anos, Luiz Vilela sacudiu a literatura brasileira com o lançamento do livro de contos 'Tremor de terra', com o qual venceu o Prêmio Nacional de Ficção. De lá para cá, já publicou cerca de 30 livros, entre coletâneas de contos e romances, ganhou prêmios importantes e foi traduzido para várias línguas.

Nascido em Ituiutaba, no Triângulo Mineiro, onde voltou a viver há alguns anos, depois de ter morado em Belo Horizonte,  São Paulo, Estados Unidos e Espanha, ele lança nesta terça-feira livro de contos, 'Você verá', na Livraria Mineiriana.

Já na primeira história, 'Zoiuda', a solidão de um homem que vive sozinho é preenchida pela presença de uma lagartixa “esbranquiçada, um pouco mais cabeçudinha que o comum”, que todas as noites lhe faz companhia quando volta para casa. Até o dia em que o bichinho sumiu e o homem teve de admitir, mesmo relutando, que sem a presença dela “aquele apartamento ficara um pouco mais vazio”.

No conto seguinte, 'Era aqui', outro homem, deixando-se levar pelas lembranças, mostra à namorada o lugar onde, na sua terra, existia um campinho de futebol no qual ele e os amigos, quando eram meninos, jogavam bola, até o dia em que a prefeitura acabou com tudo.

Num dos melhores contos do livro, 'O Bem', Luiz Vilela, de forma primorosa, fala da estreita relação que aos poucos vai sendo formada entre um homem e um encanador chamado Bem, que um amigo indicou para desentupir o sanitário do seu escritório.

Com estilo enxuto, mas carregado de emoção, as 11 histórias que Luiz Vilela oferece ao leitor em 'Você verá' são para ser lidas sem pressa. Temas corriqueiramente humanos, como a solidão, as lembranças, a vontade de mudar as coisas ou mandar tudo às favas, são recorrentes na obra.

É a vida de gente comum, que nas mãos de um mestre como Vilela acaba ganhando outra dimensão, pela capacidade, já testada em tantos outros livros, de dar grandeza às coisas aparentemente banais.

Você Verá
Lançamento do livro de Luiz Vilela. Terça-feira, a partir das 19h, na Livraria Mineiriana, Rua Paraíba, 1.419, Savassi. Entrada franca. Informações: (31) 3223-8092.